Livros e DVD - Eneagrama

O legado de Georges Ivanovitch Gurdjieff
(o homem que trouxe o Eneagrama para o Ocidente)

Hoje em dia podemos afirmar que Georges Ivanovitch Gurdjieff (1872-1949), criador do sistema de desenvolvimento humano conhecido internacionalmente como Quarto Caminho, foi um dos mais notáveis transpessoalistas modernos. Sua obra que, como alguém acertadamente escreveu, somente por ignorância é colocada nas prateleiras das chamadas "obras esotéricas" (as quais ele sempre desprezou, advertindo sobre seus perigos e extravagâncias), se mostra, a cada ano que passa, mais atual e exata. Os livros que ele escreveu guardam, para quem os estuda, reflete e pratica, preciosos tesouros frutos de uma das sínteses mais importantes do conhecimento psicofilosófico do Oriente e do Ocidente. Não vou fazer aqui um resumo da sua biografia, nem escrever sobre o que já está escrito em centenas de livros e comentários, alguns dos quais traduzidos para o português e que cito na bibliografia. O legado de G. I. Gurdjieff é hoje um dos mais importantes, especialmente neste momento em que a humanidade precisa dar um "salto quântico" no seu desenvolvimento como espécie. Foi ele quem trouxe ao conhecimento do Ocidente, há mais de 80 anos, a existência do Eneagrama, milenar símbolo-síntese criado por sábios de uma época esquecida na qual as ciências exatas e a "psicologia da possível evolução humana", como a chamava Piotr Demianovich Ouspensky, um de seus mais notáveis discípulos, estavam ligadas. Quem deseje conhecer sobre sua filosofia, poderá estabelecer contato com o nosso Instituto, o IDHI®, no Rio de Janeiro, e/ou pesquisar via Internet sobre outros grupos de trabalho de Quarto Caminho no Brasil e no mundo.

Gurdjieff foi um profundo conhecedor das psicofilosofias e tradições antigas, e teve acesso, através de uma misteriosa ordem secreta chamada Sarmung, aos – como escreveu P. D. Ouspensky – "fragmentos de um ensinamento desconhecido", cujas origens se perdem na noite dos tempos e se ligam com a extraordinária cultura sumério-babilônica, hoje reconhecida pelos historiadores como uma das mais avançadas da antigüidade em termos culturais e científicos. Atualmente seus ensinamentos poderiam ser tratados com um "espírito científico", já que estamos em condições culturais de completar – para benefício da nossa espécie e graças aos níveis de conhecimento e comunicação que temos atingido nos campos das ciências humanas e exatas – esse "quebra-cabeça" do conhecimento humano, do qual ele nos deixou tantos e valiosos "fragmentos".

Com efeito, Gurdjieff afirmava que existiu, num remoto passado, um "Grande Conhecimento", do qual faziam parte todas as ciências, artes e filosofias e de cuja existência pouco ficou registrado na história escrita da humanidade. O Eneagrama é parte desse "Grande Conhecimento" que unificava todas as coisas.

Com o intuito de promover maiores níveis de consciência entre os seres humanos e tendo como objetivo incentivar "a unidade de todas as coisas", Gurdjieff fundou na França, em 1922, o Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Ser Humano, através do qual atualizou parte desses antigos ensinamentos. Sua obra atraiu importantes personagens de todas as áreas do conhecimento humano, muitos dos quais inspirados pelos ensinamentos que revelou de uma forma incomum, os incorporaram às suas áreas de atuação profissional com excelentes resultados. Seu trabalho foi pioneiro no sentido de demonstrar objetivamente que existem níveis de consciência passíveis de serem desenvolvidos mediante práticas exatas. Muitos anos antes que se falasse sobre temas como "ecologia", "psicossomática", "relatividade", "inteligência emocional", "holismo", "psicologia transpessoal" e outros assuntos que hoje se abordam cada vez com mais facilidade e objetividade, graças aos avanços das ciências, Gurdjieff já os tratava com uma profundidade que se mostra cada vez mais exata e completa.

Tive o privilégio de conhecer sua proposta e o Eneagrama há mais de 20 anos, no Chile, através de pessoas muito especiais que desejam permanecer no anonimato.

Desde então, nunca parei de pesquisar, trabalhar e difundir o legado deste homem notável que provocou tantas descobertas direta ou indiretamente.

Com o objetivo de dar um enfoque mais abrangente das idéias de Gurdjieff e de outras linhas filosóficas do Oriente, que tive a oportunidade de aprender desde os 15 anos de idade, entre elas o Budismo (sistema psicofilosófico pelo qual Gurdjieff tinha uma especial empatia), Vedanta Advaita (uma das principais linhas filosóficas tradicionais da Índia) e Hermetismo (sistema filosófico muito antigo, especialmente difundido na Europa durante a Idade Média e cujas origens estão relacionadas com as lendas de Thot-Hermes), fundei em 1986 o Instituto para o Desenvolvimento Humano Integral, IDHI®, no Chile. Após 6 anos (1992), o refundei aqui no Brasil com o apoio dos meus primeiros alunos brasileiros

Devo advertir que o Eneagrama não tem qualquer relação com astrologia, numerologia, ou com qualquer outra prática conhecida, cujas validade e objetividade científica não me cabe julgar. O Eneagrama também não está atrelado a qualquer "tradição mística" nem é "propriedade" de qualquer escola ou instituição conhecida na atualidade. Sua natureza em termos de exatidão e objetividade é única, e já se estão fazendo pesquisas empíricas sobre ele nos Estados Unidos.

Nas últimas décadas, o trabalho de Gurdjieff sofreu ataques de setores interessados em provocar o "esquecimento" da sua obra, assim como em diminuir sua importância especialmente no que se refere aos seus conhecimentos sobre o Eneagrama. Não me parece estranho que se tenha combatido tanto o "sistema" de Gurdjieff nem que se tenham feito tantos esforços para desacreditá-lo, porque estas são as maneiras mais comuns de se tratar os grandes mestres e gênios. Esses mesmos setores não podem evitar que os ensinamentos de Gurdjieff se tornem cada vez mais conhecidos e aplicados em diversos campos da atividade humana e no mundo todo. Um desses setores tentou – e ainda tenta – provar que Gurdjieff não teria ensinado as aplicações psicológicas do Eneagrama. Porém uma análise fria e serena da sua obra pode demonstrar que ele não somente conhecia suas aplicações psicológicas profundamente, como também as utilizava para explicar outros fenômenos universais com total mestria, como o demonstra nos seus Relatos de Belzebu a seu neto, obra ainda não traduzida para o português. Tento demonstrar este fato na presente obra introdutória ao tema.

É importante advertir também que ninguém pode se atribuir a "invenção" do Eneagrama como ferramenta de desenvolvimento humano. Do mesmo modo que dizemos que Pitágoras "criou " "seu" famoso teorema e ficamos muito tranqüilos sem perceber que estamos demonstrando uma tremenda ignorância, já que ele não criou esse teorema, apenas o "herdou" de pessoas que sabiam e o tinham conservado (dados sobre esse teorema existem na China muito antes de Pitágoras existir), assim também acontece com o Eneagrama cujos verdadeiros criadores são desconhecidos, calculando-se que exista, segundo J. G. Bennet, há uns 4. 500 anos ou mais*.

* J. G. Bennet, foi um notável discípulo de Gurdjieff nos Estados Unidos. Escreveu várias obras sobre o Quarto Caminho e uma sobre o Eneagrama, publicada no Brasil pela Editora Pensamento sob o
título: O Eneagrama: Um estudo pormenorizado do Eneagrama usado por Gurdjieff.

Pela mesma razão, é importante cuidar para que este "patrimônio" científico-cultural da humanidade não seja "propriedade intelectual" de ninguém e sim um meio de desenvolvimento e unificação das ciências, artes e filosofias. Por esta razão, fico à disposição das faculdades de ciências humanas, filosofia e psicologia para entregar o resultado da minha experiência com estes conhecimentos a fim de que venham a ser estudados empiricamente para benefício de todos e das futuras gerações.

Não posso deixar de mencionar aqui a importância da atualização e sistematização do Eneagrama feita pelo sábio boliviano, Dr. Oscar Ichazo, e alguns de seus discípulos, dentre eles o prestigiado psiquiatra e escritor chileno, Dr. Claudio Naranjo.

Foi a partir do notável trabalho de pesquisa e das descobertas de Ichazo que muitos outros pesquisadores e estudiosos iniciariam importantes estudos sobre o tema. Algumas dessas obras estão traduzidas para o português e são citadas na bibliografia complementar. Sobre o Instituto Arica® e a organização conhecida como Metacultura Internacional, que divulgam o trabalho de Ichazo, sugiro pesquisar suas propostas e métodos, caso haja interesse.

Gostaria, antes de começar, de transcrever aqui algumas palavras de P. D. Ouspensky com as quais me identifico plenamente e que foram ditas por ele no início de uma série de palestras sobre o sistema do Quarto Caminho, as quais ficaram reunidas num volume que leva o mesmo título. Ele declarou:

"Antes de começar a explicar-lhes de um modo geral sobre o que trata este sistema, e de falar sobre nossos métodos, quero gravar particularmente nas suas mentes que as idéias e princípios mais importantes do sistema não me pertencem. Isto é o que os faz valiosos, porque, se me pertencessem, seriam como todas as outras teorias inventadas pelas mentes correntes: somente dariam uma visão subjetiva das coisas." Espero que o leitor não se esqueça deste importante esclarecimento.

ALGO SOBRE O VALOR OBJETIVO E CERTOS SÍMBOLOS E AS ORIGENS DO ENEAGRAMA SEGUNDO G. I. GURDJIEFF

No Capítulo XIV de Fragmentos de um ensinamento desconhecido, Piotr Demianovich Ouspensky revela, baseado em sua notável memória e em notas tomadas durante encontros com Gurdjieff, as origens do Eneagrama. Vou tentar sintetizar ao máximo o texto, citando apenas o necessário para o objetivo desta obra.

Primeiro, Ouspensky nos lembra que Gurdjieff costumava falar de uma "Ciência Objetiva" que não se baseava nos dados e experiências produtos de "estados subjetivos de consciência" e que teria existido na terra há milhares de anos*. Esta "Ciência Objetiva" teria como uma de suas idéias centrais "a unidade de todas as coisas, a unidade na diversidade". Os sábios que compreenderam a importância e profundidade destas idéias, perceberam que a transmissão e conservação das descobertas da "Ciência Objetiva" implicavam um grande esforço de síntese para conseguir preservá-las e transmiti-las às novas gerações. Pensaram, então, num meio exato para atingir esse importante objetivo. Descobrir esse meio deu, com certeza, muito trabalho a estes sábios, porque a " ciência objetiva, inclusive a idéia de unidade, só pertence à consciência objetiva", nível no qual a realidade é observada tal qual ela é e que, obviamente, não é um estado habitual entre nós.

Gurdjieff ensinava que o nosso estado habitual de consciência é subjetivo e que, na maior parte de nossa existência, ou em toda ela, vivemos num estado de "consciência subjetiva" na qual é impossível "observar" e muito menos "sentir" a realidade tal qual ela é. Assim sendo, resulta quase impossível perceber essa "unidade de todas as coisas", quando se está habituado a acreditar num "mundo fragmentado" e dividido em "milhões de fenômenos separados e sem ligação", ainda que intelectualmente até "entendamos" que algo unifica tudo. Sabemos que, com efeito, o fato de não compreendermos a "unidade de todas as coisas" e "a unidade na diversidade", é uma das causas principais da deterioração perigosa que temos provocado no equilíbrio ecológico do planeta, é a razão dos ódios raciais, a causa das injustiças sociais, etc., etc., etc.

Cientes destas nossas limitações, estes sábios decidiram que o único meio de transmitir seus conhecimentos objetivos era utilizando, entre outros recursos, símbolos especiais, que conteriam, numa síntese matemático-psicológica exata, os principais dados dessa "Ciência Objetiva". Esses dados poderiam ser resgatados no futuro, graças a existência em nós, seres humanos, de certos "centros superiores" nos níveis intelectual e emocional, os quais possuem potencialmente todas as possibilidades de compreendê-los por estarem ligados à "consciência objetiva". Graças ao fato de estes símbolos serem matematicamente exatos, não poderiam ser "subjetivizados" e, como requerem para sua compreensão a manifestação de níveis de consciência mais objetivos, não poderiam ser utilizados plenamente por seres nos quais esses níveis de consciência não estivessem devidamente atualizados. Porém, nos níveis de consciência subjetiva, alguns "dados básicos" poderiam ser estudados e, quando devidamente compreendidos, colaborariam para a obtenção dos níveis superiores de consciência.

Inspirado nesses e outros dados e nos Relatos de Belzebu a seu neto, escrevi uma obra de fiçcão que trata, dentre outras coisas, da possibilidade de ter existido na Terra uma civilização muito avançada em termos de conhecimentos científicos e tecnológicos, que teria desaparecido por causa de vários fatores. Entre esses fatores, alguns que deveríamos considerar de novo na atualidade. Esta obra será publicada em breve.

Os símbolos aos quais se referia Gurdjieff, "continham os diagramas das leis fundamentais do universo e transmitiam não só a própria ciência, mas mostravam igualmente o caminho para chegar a ela. O estudo dos símbolos, de sua estrutura e significação, era parte muito importante na preparação, sem a qual não é possível receber a ciência objetiva, e era uma prova de porque uma compreensão literal ou formal dos símbolos se opõe à aquisição de qualquer conhecimento ulterior.

Os símbolos eram divididos em fundamentais e secundários; os primeiros compreendiam os princípios dos diferentes ramos da ciência; os segundos exprimiam a natureza essencial dos fenômenos em sua relação com a unidade".

Entre as leis fundamentais sintetizadas nesses símbolos que "exprimiam a natureza essencial dos fenômenos em sua relação com a unidade", duas são de fundamental importância para compreender os ensinamentos de Gurdjieff: a "Lei de Três" e a "Lei de Sete", conhecida também como "Lei de Oitava":

"As leis fundamentais das tríades e das oitavas penetram todas as coisas e devem ser estudadas simultaneamente no homem e no universo", ensina Gurdjieff.

Porém, devido ao fato de existir num nível de consciência subjetiva, o homem precisa primeiro iniciar o estudo dessas duas leis em si mesmo, para depois compreender suas manifestações universais:

"Mas o homem é, para si mesmo, um objeto de estudo e de ciência mais próximo e mais acessível que o mundo dos fenômenos que lhe são exteriores. Por conseguinte, esforçando-se por atingir o conhecimento do universo, o homem deverá começar por estudar em si mesmo as leis fundamentais do universo."

Por outro lado, o conhecimento dos símbolos e das leis fundamentais que eles guardam não pode ser apenas "teórico", já que, nesse nível, os símbolos ainda estão sujeitos a interpretações errôneas devido à subjetividade consciencial. Daí que, para compreendê-los profundamente, deve-se atingir um nível no qual as considerações subjetivas que provocam discussões e contradições sejam superadas completamente, o que exige um profundo conhecimento de si mesmo, único modo de compreender as leis fundamentais do universo, ou seja: "(...) a verdadeira compreensão dos símbolos não pode prestar-se a discussões".

Para quem pretende atingir esse nível de compreensão, Gurdjieff adverte:

"(...) se alguém imagina poder seguir o caminho do conhecimento de si, guiado por uma ciência exata de todos os detalhes, ou se espera adquirir tal ciência antes de se ter dado o trabalho de assimilar as diretrizes que recebeu, no que concerne a seu próprio trabalho, engana-se; deve compreender, antes de tudo, que nunca chegará à ciência (objetiva) antes de ter feito os esforços necessários e que somente seu trabalho sobre si mesmo permitirá atingir o que busca. Ninguém lhe poderá dar o que ele ainda não possui; nunca ninguém poderá fazer por ele o trabalho que ele deveria fazer por si mesmo. Tudo o que outro pode fazer por ele é estimulá-lo a trabalhar e, desse ponto de vista, o símbolo compreendido como deve ser, desempenha o papel de um estimulante em relação à nossa ciência (objetiva)".

A advertência de Gurdjieff mostra-se claramente necessária, já que, nos nossos dias e apesar de todos os nossos avanços e conhecimentos "teóricos", ainda não compreendemos a importância de "leis básicas" como a de "causa e efeito", por exemplo, pois, se as compreendêssemos, primeiro em relação a nós mesmos e, em seguida, em relação à natureza da qual somos parte, concluiríamos, sem ter que discutir e sem "subjetividades" de nenhuma espécie, que uma série de erros simplesmente não poderia ser cometida sob nenhum aspecto, se as aplicássemos "objetivamente". Porém a maioria não tem consciência de que muitos "efeitos" indesejáveis e negativos só existem porque não somos conscientes dos nossos atos, ou seja, não "compreendemos" o que essa lei de "causa e efeito" implica, ainda que sejamos capazes de "decorá-la" quando passamos pelo colégio. Também vemos que essa falta de "compreensão" acontece inclusive em relação a signos simples, que são meios de expressar certos dados menos profundos que os contidos nos símbolos, porém não menos importantes na prática. Assim, por exemplo, um sujeito pode "aprender", através do regulamento do trânsito, que um cartaz ou painel de fundo amarelo com a figura em cor preta de uma criança que carrega livros significa: "atenção-diminua-a-velocidade-do-seu-carro-porque-você-está-passando-por-um-local-próximo -a-uma-escola-e-crianças-menos-responsáveis-que-você-que-é-adulto-estão-por-perto, etc, etc." Porém, o fato de este sujeito "aprender" a "interpretar" esse "sinal de trânsito", internacionalmente aceito, não implica necessariamente que compreendeu a necessidade de obedecê-lo, e pode vir a atropelar uma ou várias crianças que, "acidentalmente", estejam perto da dita escola no dia em que ele não respeite esse "signo". O "estímulo" para a compreensão foi dado, porém não foi "vivenciado" pelo sujeito que o recebeu.

Voltemos ao assunto dos símbolos e das chamadas "leis fundamentais". Gurdjieff afirma, em outra parte do Capítulo XIV da citada obra de Ouspensky, que: "a lei de oitava conecta todos os processos do universo e, para aquele que conhece as oitavas de transição e as leis de sua estrutura (ou seja, a Lei de Três e a Lei de Sete), surge a possibilidade de um conhecimento exato de cada coisa ou de cada fenômeno em sua natureza essencial, bem como de todas as suas relações com as outras coisas e com os outros fenômenos".

Então nos revela que, "para unir, para integrar todos os conhecimentos relativos `a lei da estrutura da oitava, existe um símbolo que toma a forma de um círculo cuja circunferência se divide em nove partes iguais, mediante pontos ligados entre si, numa certa ordem, por nove linhas". Ou seja, o Eneagrama.

Os sábios que deram origem a este símbolo-síntese não pertenciam, ensina Gurdjieff, a nenhuma das linhas de conhecimento "tradicional" conhecidas na atualidade: nem hebraica, nem egípcia, nem iraniana, nem hindu, nem qualquer outra conhecida. A despeito de respeitáveis tradições desejarem ser os "pais da criança", como se diz aqui no Brasil, este símbolo "não poderia ser encontrado em nenhum de seus livros", e, embora se atribua o Eneagrama aos respeitáveis místicos sufis e suas tradições orais, por exemplo, Gurdjieff sustenta que este símbolo "não é objeto de uma tradição oral".

Quando discute as origens do Eneagrama Gurdjieff ensina:

"O ensinamento, cuja teoria expomos aqui, é completamente autônomo, independente de todos os outros caminhos e, até hoje [ou seja, até a data em que Gurdjieff o revelou aos seus discípulos], tinha permanecido inteiramente desconhecido. Como outros ensinamentos, utiliza o método simbólico e um de seus símbolos principais é a figura que mencionamos, isto é, o círculo dividido em nove partes." (O itálico nas citações é meu.)

Observe que Gurdjieff está se referindo a um sistema de conhecimento a que ele teve acesso e no qual o Eneagrama é um, somente um, dos símbolos principais, o que significa que nesse sistema existem, ou existiam, mais símbolos, alguns dos quais Gurdjieff revelou indiretamente através das suas exatas "Danças Conscientes", que você pode apreciar no filme baseado em sua obra autobiográfica "Encontros com homens notáveis", dirigido por Peter Brook e lançado no Brasil com o mesmo título.

A descrição que Gurdjieff faz do Eneagrama nesse mesmo capítulo é a seguinte (a Editora Pensamento vai ter que se preparar para vender várias cópias do livro de Ouspensky. Com certeza você vai querer ler o Capítulo XIV de Fragmentos de um ensinamento desconhecido completo, não?):

Este símbolo toma forma seguinte:

Figura 1


"O Círculo está dividido em nove partes iguais. A figura construída sobre seis desses pontos tem por eixo de simetria o diâmetro que desce do ponto superior. Esse ponto é o vértice de um triângulo equilátero construído sobre aqueles pontos, dentre os nove, que estão situados fora da primeira figura."

Como assinalei há pouco, este símbolo, diz Gurdjieff, "exprime a Lei de Sete em sua união com a Lei de Três", e é "uma expressão perfeita da Lei de Oitava"*.

Ampliando suas explicações matemáticas sobre este símbolo, Gurdjieff diz:

"As leis da unidade refletem-se em todos os fenômenos. O sistema decimal foi construído sobre as mesmas leis. Se tomarmos uma unidade como uma nota que contém em si mesma uma oitava inteira, devemos dividir essa unidade em sete partes desiguais correspondentes às sete notas dessa oitava. Mas, na representação gráfica, a desigualdade de partes não é levada em consideração e, para a construção do diagrama, toma-se primeiro um sétimo, depois dois sétimos, depois três, quatro, cinco, seis e sete sétimos. Se calcularmos as partes decimais, obteremos:

1/7 = 0, 142857...
2/7 = 0, 285714...
3/7 = 0, 428571...
4/7 = 0, 571428...
5/7 = 0, 714285...
6/7 = 0, 857142...
7/7 = 0, 999999..."

Você pode observar que, com exceção da última dízima periódica, em todas as restantes "encontram-se presentes os mesmos seis algarismos, que trocam de lugar segundo uma seqüência definida; de tal modo que, quando se conhece o primeiro algarismo do período, torna-se possível reconstruir o período inteiro". Você também observou que nesses períodos "os números 3, 6 e 9 não estão incluídos (...) [porque eles] formam o triângulo separado – a trindade livre do símbolo".

Se você leitor prestou atenção à seqüência definida segundo a qual os algarismos trocam seus lugares, está em condições de compreender o "movimento" que este símbolo representa, e que se conhece como "movimento eneagramático externo" e se expressa por "setas" que indicam a direção desse "movimento" contínuo: 1 ® 4 ® 2 ® 8 ® 5 ® 7 ® 1 ® 4 ®, e assim por diante.

Figura 2


Aqui o triângulo eqüilátero é considerado como uma "unidade" e os 6 "pontos" (1, 4, 2, 8, 5 e 7) lembram a "Lei de Sete" ou "Lei de Oitava" (6 + 1 = 7).

Os números 3, 6 e 9 ficam nos vértices do triângulo e seu "movimento", conhecido como "interno", é: 9 ® 6 ® 3 ® 9 ® 6 ® 3, etc. e são indicados com as "setas" correspondentes:

Figura 3


Estas indicações preliminares serão importantes quando considerarmos os Tipos Eneagramáticos e seus movimentos psicológicos contra e/ou a favor da seta de acordo com seu "Traço ou Defeito Principal".

Ouspensky deixou registrado também que "Gurdjieff voltou ao Eneagrama em múltiplas ocasiões".

Numa dessas ocasiões revelou que: "(...) é necessário compreender que o Eneagrama é um símbolo universal. Qualquer ciência tem seu lugar no Eneagrama e pode ser interpretada graças a ele. E, sob este aspecto, é possível dizer que um homem só conhece realmente, isto é, só compreende aquilo que é capaz de situar no Eneagrama. O que não é capaz de situar no Eneagrama, não compreende. (....) Se um homem isolado no deserto traçasse o Eneagrama na areia, nele poderia ler as leis eternas do universo. E cada vez aprenderia alguma coisa nova, alguma coisa que ignorava até então."

E mais: "(...) O Eneagrama é o movimento perpétuo, é esse perpetuum mobile que os homens buscaram desde a mais remota antigüidade, sempre em vão. E não é difícil compreender por que não podiam encontrá-lo. Buscavam fora de si o que estava dentro deles (...) A compreensão desse símbolo e a capacidade de utilizá-lo dão ao homem um poder muito grande (...)."

Gurdjieff também diz: "(...) A ciência do Eneagrama foi mantida secreta durante muito tempo e, se agora, de certo modo, está sendo tornada acessível a todos, é apenas sob uma forma incompleta e teórica, praticamente inutilizável para quem não tenha sido instruído nessa ciência por um homem que a possua. Para ser compreendido, o Eneagrama deve ser pensado como em movimento, como se movendo. Um Eneagrama fixo é um símbolo morto; o símbolo vivo está em movimento."

Um dos "movimentos" do Eneagrama tem relação com os aspectos dinâmico-psicológicos que diferenciam os seres humanos uns dos outros como já foi mostrado. É sobre esse "movimento" que tratamos neste livro à luz dos ensinamentos de Gurdjieff.

A APLICAÇÃO PSICOLÓGICA DO ENEAGRAMA NOS ENSINAMENTOS DE GURDJIEFF

OS TRÊS CENTROS BÁSICOS: Como profundo conhecedor do Eneagrama, G. I. Gurdjieff baseou todo o seu método de desenvolvimento humano na aplicação deste símbolo milenar e nas leis das quais ele é a síntese: a "Lei de Sete" e a "Lei de Três".

Baseado na "Lei de Três" presente no Eneagrama, ele dividia o ser humano, para facilitar o estudo e a compreensão de si mesmo, em três níveis ou "centros" básicos: Centro Intelectual, Centro Emocional e Centro Motor. Como lembra Ouspensky, "tentava inicialmente ensinar-nos a distinguir essas funções, a encontrar exemplos e assim por diante".

No Eneagrama esses "centros" têm a seguinte localização:

Figura 4

Você pode observar como, para cada centro, existem uma manifestação eneagramática "tripla" e um correspondente vértice do triângulo central.

Figura 5

Relação dos Centros com a Bilateralidade Cerebral. Descobri que no Eneagrama devemos observar o ser humano ao contrário: no Centro Físico ou do Movimento, estão os pés; no Centro Intelectual, a mão esquerda; e no Centro Emocional a mão direita. Por último, nos Pontos 4 e 5 devemos imaginar a cabeça e os hemisférios cerebrais: no Ponto 5 o hemisfério cerebral esquerdo e no Ponto 4 o hemisfério cerebral direito. De acordo com o princípio de bilateralidade cerebral o hemisfério cerebral esquerdo rege o lado direito do ser humano (Centro Emocional) e o hemisfério cerebral direito rege o lado esquerdo do ser humano. Daí a importância do desenvolvimento harmonioso dos três Centros, já que uma das questões mais descuidadas na educação é a do desenvolvimento do hemisfério cerebral direito relacionado com o Centro Emocional no Eneagrama e uma supervalorização do hemisfério cerebral esquerdo ligado ao Centro Intelectual no Eneagrama. Isso explica a importância que Gurdjieff dava ao desenvolvimento de todos os Centros como única maneira de formar um ser humano mais harmonioso.

Centro Emocional são 2, 3 e 4; e, finalmente, os associados ao Centro Intelectual são 5, 6 e 7.

A localização dos centros como se vê no gráfico não é aleatória. Obedece a uma ordem exata, revelada por Gurdjieff a seus alunos e que foi preservada por Ouspensky no Capítulo IX da obra citada. Não tratarei deste tema aqui por sua complexidade e porque só costumo falar sobre ele com quem já tem um certo tempo Os números associados ao Centro Motor são: 8, 9 e 1; os associados ao de prática com o Eneagrama.

Esta primeira divisão é muito importante, já que, compreendendo-a, é possível apreender uma segunda divisão de Gurdjieff, maior, mas pouco conhecida, cujo profundo valor sequer se suspeita, tendo a maioria se limitado a repetir o que Ouspensky escreveu a respeito. Refiro-me aos Três Grupos de Seres Humanos Básicos e aos Quatro Grupos de Seres Humanos que correspondem a níveis superiores de evolução consciente. Note-se que novamente estão presentes aqui as Leis de Três e de Sete. Vejamos.

OS TRÊS GRUPOS DE SERES HUMANOS BÁSICOS E OS QUATRO GRUPOS SUPERIORES DE SERES HUMANOS SEGUNDO G. I. GURDJIEFF

Gurdjieff ensinava que existem Três Grupos de Seres Humanos Básicos, os de "Homens número Um"; "Homens número Dois" e "Homens número Três", que não devemos confundir com os números dos Tipos Eneagramáticos e seus Traços Principais.

Para eles os Grupos de Seres Humanos "Um, Dois e Três constituem a humanidade mecânica; permanecem no nível em que nasceram". Só poderiam ascender a um nível superior de consciência mediante um trabalho perseverante que objetivasse a evolução individual, através de escolas conectadas com o que Gurdjieff chamava de o "Círculo Consciente da Humanidade".

Os seres humanos do Grupo número Um correspondem no "Eneagrama dos Traços Principais" aos Tipos 8, 9 e 1 e, segundo Gurdjieff, teriam o "centro de gravidade de sua vida psíquica no Centro Motor". Seriam os homens "do corpo físico, em quem as funções do instinto e do movimento predominam sobre as do sentimento e do pensar". Estes aprendem por imitação, por memorização e por repetição.

Os seres humanos do Grupo número Dois correspondem no "Eneagrama dos Traços Principais" aos Tipos 2, 3 e 4 e, segundo Gurdjieff, seriam aqueles nos quais o "centro de gravidade de sua vida psíquica está no Centro Emocional, e, [o ser humano] em quem as funções emocionais predominam sobre as outras é [o ser humano] do sentimento, [o ser humano] emocional". Aprendem somente o que lhes "agrada", o de que "gostam". Quando sadios procuram tudo o que lhes "agrada"; quando "doentios" são atraídos para o que os "desagrada".

Os seres humanos do Grupo número Três correspondem no "Eneagrama dos Traços Principais" aos Tipos 5, 6 e 7 e, segundo Gurdjieff, "o [ser humano] Número Três (é aquele cujo) centro de gravidade de sua vida psíquica está no Centro Intelectual, noutros termos, é [o ser humano] em quem as funções intelectuais predominam sobre as funções emocionais, instintivas e motoras; é o [ser humano] racional, que tem uma teoria para tudo o que faz, que parte sempre de considerações mentais [...] O saber [dos seres humanos Três] é um saber fundado num pensar subjetivamente lógico, em palavras, numa compreensão literal [...]".

Naturalmente, para cada aspecto predominante, existem outros dois, só que com menor poder de influência e desenvolvimento. Para "visualizar" esta divisão da humanidade, fiz o seguinte gráfico:

Figura 6

Além destes Três Grupos de Seres Humanos Básicos, Gurdjieff definia um grupo de Seres Humanos Intermediários (ou seja, que estão iniciando um processo de evolução consciente) e três Grupos de Seres Humanos Superiores, produtos de uma evolução deliberada, consciente e gradual, fruto de um conhecimento exato relacionado com o desenvolvimento objetivo de novos níveis de consciência e nos quais os Três Centros estão em equilíbrio, permitindo, a partir do quinto nível evolutivo, a manifestação plena do que ele chamava de "Centros Superiores", que existem só potencialmente nas primeiras três categorias "mecânicas", e com alguns sinais básicos de manifestação na quarta categoria.

O Ser humano do Grupo número Quatro: Gurdjieff o definia como aquele que, tendo nascido nos Grupos Psicológicos Um, Dois ou Três, conhece um sistema de trabalho interno, que lhe permite desenvolver nele "um centro de gravidade permanente feito de suas idéias, de sua apreciação do trabalho (interno) e de sua relação com a escola (na qual aprende a realizar esse trabalho de autoconhecimento). Além disso, seus centros psíquicos já começaram a se equilibrar; nele, um centro não pode mais ter preponderância sobre os outros, como é o caso das três primeiras categorias". Gurdjieff completa dizendo que este tipo de ser humano, diferentemente dos que pertencem aos três primeiros Grupos, "já começa a se conhecer, começa a saber para onde vai".

Sobre os seres humanos das categorias Cinco, Seis e Sete (não confundir com os Tipos 5, 6 e 7), Gurdjieff se refere apenas ao tipo de saber que desenvolvem com as seguintes palavras citadas por Ouspensky:

"O saber do homem [do Grupo] número Cinco é um saber total e indivisível [...]. Possui um Eu indivisível e todo o seu conhecimento pertence a esse Eu. Não pode mais ter um 'eu' que saiba alguma coisa sem que outro 'eu' esteja informado disso. O que ele sabe, sabe com a totalidade de seu ser. Seu saber está mais próximo do saber objetivo [lembra o que já revelamos sobre o conhecimento objetivo anteriormente?] do que pode estar o do homem número Quatro.

O saber do homem [do Grupo] número Seis representa a integralidade do saber acessível ao homem; mais ainda pode ser perdido. "

O saber do homem [do Grupo] número Sete é bem dele e não lhe pode mais ser tirado; é o saber objetivo e totalmente prático (ou seja, vivencial, não teórico) de Tudo."

Em seguida e para reflexão dos conhecedores do Quarto Caminho e interessados no autoconhecimento e na evolução "espiritual" da humanidade, deixo um insight que tive em relação a estes ensinamentos e que resumi no seguinte "Eneagrama da evolução possível do homem", para cuja confecção apliquei o Princípio Hermético de Correspondência, a Lei de Três e a Lei de Sete.

Figura 7

O Eneagrama da possível evolução humana. As sete categorias humanas de Gurdjieff (três "mecânicas", uma "intermediária" e três "conscientes"). Para chegar a elas, baseei-me nas Leis de Analogia (Segunda Lei Hermética de Correspondência*), a Lei de Três e a Lei de Sete.

(*) Sobre as Leis ou Princípios Herméticos, você pode ler minha obra Iniciação e autoconhecimento.

A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO PRÁTICO DO ENEAGRAMA PARA O AUTOCONHECIMENTO

É fácil observar no gráfico anterior como são importantes o estudo e o conhecimento de si mesmo através do Eneagrama, já que, teoricamente, nos podem conduzir a níveis de desenvolvimento muito elevados.

Iniciar um processo de autoconhecimento implica primeiramente perceber e aceitar que vivemos sujeitos a um nível de consciência subjetivo e "mecânico"; que somos parte de um desses três grupos psicológicos básicos de seres humanos e que o meio para nos livrarmos dessa "mecanicidade" passa necessariamente por um processo de aprimoramento que não pode ser realizado aleatoriamente. O que é importante para alguns não o é necessariamente para outros. Enquanto não soubermos o que implica tudo isso, não será possível compreender por que é fundamental iniciar este processo objetivamente.

A partir de um certo momento, muitas pessoas iniciam seus primeiros esforços em busca de maior autodomínio e autoconhecimento, porque percebem os benefícios espirituais, materiais e individuais que isso lhes proporciona. Contudo podem ser várias as razões para se iniciar um processo de autoconhecimento e enfocar uma ou todas estas valiosas metas. Porém as diversas razões pelas quais uma pessoa deseja ter maior domínio e conhecimento de si mesma podem claramente ser definidas quando sabemos a qual dos grupos principais ela pertence como ser humano. É fácil comprovar que existem motivações básicas bem diferentes. Pessoas do Grupo Um (Centro Motor) talvez desejem obter maior poder pessoal, maior controle das situações e dos demais, maior domínio de si mesmas, objetivando "resultados materiais". Pessoas do Grupo Dois (Centro Emocional) querem lidar e interagir melhor com as pessoas em termos emocionais, querem aprender a controlar suas emoções e as das outras pessoas, querem ampliar suas possibilidades de servir aos outros com sucesso já que isto as satisfaz e realiza. Por último, pessoas do Grupo Três (Centro Intelectual) querem saber quais são as causas e as leis que governam seus mundos internos, querem conhecer as causas pelas quais os fenômenos acontecem, querem ter os conhecimentos que lhes permitam compreender a vida e a si mesmas, não necessariamente pelas razões dos primeiros grupos. Talvez queiram apenas saber. Naturalmente, em todas elas, algo das motivações que influenciam com maior força os outros dois grupos aos quais não pertencem, está presente, ainda que em menor grau. A razão é que em todos os três Grupos é possível perceber um desenvolvimento psicológico unilateral, pelo qual um dos Centros se tornou mais "sensível" que os outros aos "estímulos externos" e "interpreta" a realidade a partir de "necessidades" e "motivações" diferentes.

O que dificulta o estudo prático de si mesmo é o fato de as pessoas não se darem conta do que implica ser parte de uma humanidade mecânica ou que vive num baixo nível de consciência.

Em primeiro lugar, no nível de consciência habitual ou subjetivo, o ser humano não é realmente "livre". Gurdjieff ensina que nesse nível o ser humano não faz, tudo simplesmente lhe acontece. É muito difícil compreender e aceitar esta afirmação porque todos achamos que "fazemos". Só que, falando em termos estritos, nenhum ser humano nos três Grupos (Físico, Emocional e/ou Mental) poderia considerar que suas condutas, modos de agir e/ou reagir perante a existência são "conscientemente" escolhidos ou mesmo originais, já que todos os que integram esses grupos agem e reagem pelas mesmas causas básicas. Isto é uma das verdades que o Eneagrama nos permite "descobrir".

O único meio de que dispomos para nos livrarmos dessa "mecanicidade" é conhecer como ela se manifesta em cada um de nós, ou seja, quais são essas características mecânicas e previsíveis que acompanham essa nossa manifestação pessoal. É aqui que o Eneagrama dos Traços Principais se torna valioso, porque através dele conseguiremos saber:

Qual é o Grupo (Um, Dois ou Três) ao qual pertenço como ser humano no nível "mecânico".

Qual é o Traço ou Defeito Principal (são três para cada grupo), no qual devo concentrar meus esforços de observação, lembrança e autocontrole para superá-lo e conseguir efetivamente o conhecimento de mim mesmo.

Qual o trabalho específico, relacionado com meu grupo e Traço Principal, que me ajudará a aprimorar meu autoconhecimento e autodomínio. Vamos, então, conhecer o Eneagrama dos Traços ou Defeitos Principais e suas três causas principais.

O ENEAGRAMA DOS NOVE TRAÇOS (defeitos) PRINCIPAIS SEGUNDO GURDJIEFF

Gurdjieff costumava usar uma linguagem muito exata para transmitir seus conhecimentos, de tal maneira que seus conceitos podem ser muito bem identificados e diferenciados por alguém que estude e reflita sobre sua obra com atenção. Isso me permitiu realizar a análise eneagramática dos mesmos e definir explicitamente o Eneagrama dos Traços Principais implícitos nas obras de Gurdjieff e Ouspensky. Baseado nesta experiência e comparando essas observações com os estudos e descobertas eneagramáticos feitos por Ichazo segundo foram revelados, pesquisados e/ ou comentados nas obras de Claudio Naranjo, Don Richard Riso, Helen Palmer e outros pesquisadores do tema, pude, ao longo do tempo, concluir que, eneagramatica mente falando, os Três Problemas Fundamentais e Nucleares que segundo Gurdjieff impedem o autoconhecimento e a realização humana são:

O Esquecimento de Si Mesmo

A Consideração Interna

A Identificação

Destes três problemas principais, a que podem e devem ser associados os Três Grupos Humanos Básicos, surgem os seguintes Traços Principais:

Do Primeiro Grupo: Do Esquecimento de Si Mesmo, questão nuclear que afeta os seres humanos Tipos 8, 9 e 1, cujo centro de gravidade psicológico está localizado no Centro Motor ou do Movimento, surgem:

a) Os seres humanos que se caracterizam por um constante estado de luta e defesa contra tudo o que parece estar contra eles, revoltados, sempre acham que alguma "injustiça" está sendo cometida contra eles, ou seja, os Tipos 8.

b) Os seres humanos proteladores e esquecidos que se caracterizam por sofrer do que Gurdjieff chamava de a "doença do amanhã", ou seja, os Tipos 9; e

c) Os seres humanos que se caracterizam por uma forte inclinação a separar as coisas em "boas" e "más", "corretas" e "incorretas", "certas" e "erradas", ao que Gurdjieff denominava a "Moral Externa" ou "moral subjetiva", ou seja, os Tipos 1;

Figura 8

Grupo Um dos seres humanos /Centro Motor ou do Movimento / Tipos 8, 9 e 1
Questão Nuclear: Esquecimento de Si Mesmo/Traços ou Defeitos Principais:
A "revolta" (8) A "Doença do amanhã" (9) e a "Moral Externa ou subjetiva" (1)

o Segundo Grupo: Da Identificação, questão nuclear que afeta os seres humanos Tipos 2, 3 e 4 e cujo centro de gravidade psicológico está localizado no Centro Emocional, surgem:

a) Os seres humanos que, segundo Gurdjieff, se caracterizam por acreditar que não consideram os outros o suficiente, que não dão o suficiente de si e que se tornam escravos dos outros quando amam, ou seja, os Tipos 2. Identificados com as emoções alheias.

b) Os seres humanos que, segundo Gurdjieff, se caracterizam por suas "exigências", ou seja, que exigem admiração, estima e consideração constante dos outros para que se sintam agradados e felizes, ou seja, os Tipos 3. Identificados com a "imagem" necessária para obter a consideração alheia.

c) Os seres humanos que, segundo Gurdjieff, sofrem "tolamente", aqueles para os quais o "sofrimento inconsciente" se tornou uma escravidão, ou seja, os Tipos 4. Identificados com seus próprios "sofrimentos".

Figura 9

Grupo Dois dos seres humanos / Centro Emocional / Tipos 2, 3 e 4
Questão Nuclear: Identificação/Traços ou Defeitos Principais: "Amor escravo" (2)
A "Exigência" de atenção (3) e o "Sofrimento tolo" (4)

Do Terceiro Grupo: Da Consideração Interna, questão nuclear que afeta os seres humanos Tipos 5, 6 e 7 e cujo centro de gravidade psicológico está localizado no Centro Intelectual, surgem:

a) Os seres humanos que, segundo Gurdjieff, só vivem "pelo mental", que aprendem sem compreender, ou seja, os Tipos 5.

b) Os seres humanos que estão sob o controle do "medo" e/ ou que "deixam de ver e ouvir o que realmente acontece", ou seja, os Tipos 6.

c) Os seres humanos que têm a ilusão de serem "livres", que acham que possuem "vontade própria" para "escolher, dirigir e organizar livremente suas vidas", que se acham "notáveis", "originais", ou seja, os Tipos 7.

Figura 10

Grupo Três dos seres humanos / Centro Intelectual / Tipos 5, 6 e 7
Questão Nuclear: Consideração Interna / Traços ou Defeitos Principais: "Viver no mental" (5)
O "Medo" (6 ) e a "Falsa liberdade" (7)

DEFINIÇÕES DE GURDJIEFF CONSIDERADAS PARA O ESTUDO DOS TRAÇOS (DEFEITOS) PRINCIPAIS

Definição dos três problemas nucleares: Esquecimento de Si Mesmo, Identificação e Consideração Interna e sua relação com os Tipos Eneagramáticos:

Gurdjieff permanentemente chamava a atenção dos seus alunos para os três problemas nucleares. Para ele, era fundamental que todos conseguissem observá-los em si mesmos, como um meio para alcançar a consciência de si. Sendo "nucleares", afetam todos os Tipos Eneagramáticos, porém aquele relacionado com o grupo ao qual você pertence, deve ser considerado com maior atenção.

Sendo meu interesse principal destacar a obra e os ensinamentos deste mestre, cito as principais definições que ele deixou destes três problemas nucleares:

Sobre o Esquecimento de Si Mesmo:

Gurdjieff dizia: "... o homem se esquece de si mesmo sem cessar. Sua impotência em lembrar-se de si é um dos traços mais característicos de seu ser e a verdadeira causa de todo o seu comportamento..."

Também podemos ler: "Vocês se esquecem sempre de si mesmos, vocês nunca se lembram de si mesmos. Vocês não sentem a si mesmos; vocês não são conscientes de si mesmos. Em vocês, isso observa, ou então isso fala, isso pensa, isso ri; vocês não sentem: sou eu quem observa, eu observo, eu noto, eu vejo. Tudo se observa sozinho, se vê sozinho... Para chegar a observar verdadeiramente, é necessário, antes de tudo, lembrar-se de si mesmo. "

Embora sirva para todos, por se tratar de um ponto nuclear que afeta todos os Tipos e se manifesta em todos os Defeitos ou Traços Principais, esta recomendação se reveste de especial importância para os Tipos 8, 9 e 1, os quais deverão considerá-la especialmente. Por quê? Porque, por exemplo, quando Tipos 8 se fixam demais na conquista do externo, "esquecem" do valor de seus mundos internos; quando Tipos 9 deixam de se importar com suas necessidades e protelam aquelas ações que os beneficiam pessoalmente, estão demonstrando o "esquecimento" de si mesmos, e quando Tipos 1 se preocupam demais com as "formalidades" e com a "ordem", "esquecem" de considerar as coisas sob outros ângulos e, também, "esquecem" que existem várias maneiras de realizar os mesmos objetivos.

P. D. Ouspensky escreve a respeito o seguinte:

"Dizia que um fato de prodigiosa importância escapara à psicologia ocidental, ou seja: que não nos lembramos de nós mesmos, que vivemos, agimos e raciocinamos dentro de um sono profundo, dentro de um sono que nada tem de metafórico, mas é absolutamente real; e, no entanto, que podemos nos lembrar de nós mesmos, se fizermos esforços suficientes; que podemos despertar. "

A lembrança de si mesmo é a chave que nos permite compreender que não somos nossas "máscaras" (personalidades), que elas não são o ser real e que é possível observar nosso "traço ou defeito principal" compreendendo que podemos chegar a transmutá-lo em seu oposto "virtuoso".

Sobre a Identificação:

Gurdjieff dizia que "... uma das características fundamentais da atitude do homem para consigo mesmo e para com os que o rodeiam [é] sua constante identificação com tudo o que prende sua atenção, seus pensamentos ou seus desejos e sua imaginação. A Identificação é um traço tão comum que, na tarefa da observação de si, é difícil separá-la do resto. O homem está sempre em estado de identificação; apenas muda o objeto de sua identificação".

Assim como acontece com o Esquecimento de Si Mesmo, a Identificação, como aspecto "nuclear" (Ponto 3 do Eneagrama), afeta todos nós e, como diz Gurdjieff, quando iniciamos a observação de nós mesmos, é difícil separá-la do resto, porém ela afeta com maior força os Tipos 2, 3 e 4, os quais deverão trabalhar sobre este aspecto com mais atenção. Exemplos: a) a "Identificação" leva Tipos 2 a ficarem "escravos" do que amam transformando-os em "seres para", o que, num momento determinado, pode angustiá-los; b) leva Tipos 3 a ficarem "escravos" dos "bons desempenhos", dos "triunfos", da "imagem de sucesso", o que lhes provoca a perda do "contato" com seus sentimentos e necessidades mais profundos; finalmente, a "Identificação" com vivências passadas ou com desejos ou esperanças futuras leva Tipos 4 a serem "escravos" das lembranças ou dos desejos e, portanto, a não estarem emocionalmente felizes no momento "presente", nem perceber o que esse "presente" tem de bom.

Gurdjieff sustenta que o único modo de superar a identificação é aprendendo a desidentificar-se, já que somente desta maneira se poderá conseguir a "lembrança de si": "... para aprender a não se identificar, o homem deve, antes de tudo, não se identificar consigo mesmo, não chamar a si mesmo de 'eu', sempre e em todas as coisas. Deve lembrar-se de que existem dois nele, que há ele mesmo, isto é, um 'eu' (o verdadeiro ser, o observador) e o outro (a máscara, o falso eu), com quem deve lutar e a quem deve vencer se quiser alcançar alguma coisa. Enquanto um homem se identifica ou é suscetível de identificar-se, é escravo de tudo o que lhe pode acontecer. A liberdade significa antes de tudo: libertar-se da identificação".

Sobre a Consideração Interna:

Considerar tem sua origem no latim considerare e, segundo os dicionários, significa entre outras coisas: atender a, atentar para; pensar em; meditar, ponderar, examinar, imaginar, conceber, julgar, refletir em alguma coisa. Todos estes sentidos "intelectuais" devem ser relacionados na definição que Gurdjieff faz da "consideração interna", ou seja, um pensar, refletir, examinar, imaginar, somente voltado ao sujeito que considera e relaciona tudo apenas com suas "necessidades". Não existe um pensar "considerando o que está fora" do sujeito, ou seja, considerando as pessoas, as situações, as necessidades, os sentimentos e estados de ânimo dessas pessoas, desses outros. A consideração interior é como um muro que nos separa da realidade tal qual ela é. A consideração interna não nos permite agir de acordo com as mudanças, as nuances, apenas podemos enxergar nossas "idéias", nossas "opiniões", nossos "medos". Na consideração interior também existe uma "projeção" ao exterior daquilo que eu sinto, penso ou acho de uma situação dada. Na filosofia Vedanta Advaita, se diz que um dos poderes de "Maia" é fazer as coisas aparecerem como elas não são e se conta, como exemplo, a história de um sujeito que vem caminhando à noite por uma estrada escura. Está ventando muito, então, de repente, ele vê uma serpente se movendo alguns metros adiante e se arma com um pau para se defender do provável ataque. Fica tenso, perde muita energia pelo seu grande temor de ser mordido pela serpente. Avança com cuidado. A serpente parece estar muito agitada. Porém quando chega perto da serpente e está totalmente esgotado de tanto temor, tremendo e suando, percebe que ela não existe, que era um galho que, movido pelo vento e devido à noite escura, parecia uma serpente. Isto é a consideração interna: uma incapacidade de ver, sentir e pensar nas coisas apenas tal qual elas são. Gurdjieff ensina a respeito que:

"Temos duas vidas, uma interior e outra exterior; por conseguinte, temos duas espécies de consideração. Nós 'consideramos' constantemente. " Então, ele dá um exemplo: "Uma pessoa me olha. Interiormente, sinto antipatia por ela (...) exteriormente sou cortês. Sou forçado a ser cortês, pois preciso dela. Isso é consideração exterior. Agora ela diz que sou um imbecil. Isso me enfurece. O fato de estar enfurecido é um resultado, mas o que se passa em mim é proveniente da consideração interior."

A consideração interior, por ser um dos pontos nucleares (Ponto 6), também é algo que devemos aprender a controlar, porque afeta todos os Tipos Eneagramáticos. Porém os Tipos 5, 6 e 7 deverão prestar maior atenção a esta questão. Por exemplo, Tipos 5 tendem a se isolar porque lhes é difícil "comunicar-se", "interagir" e "inter-relacionar-se" com os demais, por estarem sempre "considerando internamente", ou seja, pensando que algumas pessoas são "muito superficiais", que outras "podem comprometê-lo", outras podem ter "intenções ocultas" e assim por diante, o que os leva a criar barreiras entre eles e os outros. Os Tipos 6 "consideram internamente" a partir de seus temores, de seus medos, imaginam situações perigosas ou difíceis de resolver e vivem essas suposições como se fossem reais. Já os Tipos 7 vivem "planejando" coisas no "plano mental", às vezes totalmente "fora da realidade", o que os pode levar a cometer certas irresponsabilidades que acabam afetando outros. Tudo isto porque apenas "consideram internamente" e não percebem que seus atos, que julgam "importantes", podem afetar negativamente os outros. Gurdjieff afirma que esta "consideração interna" é produto de uma educação que só se preocupa com o desenvolvimento do Centro Intelectual. Ele diz que "não educamos nada além de nosso intelecto" e que o caminho para a consideração externa é o desenvolvimento correto do Centro Emocional, o qual compara com um "cavalo" que só aprendeu duas palavras "direita" e "esquerda", ou seja, "simpático/odioso, agradável/desagradável", etc. Um de seus conselhos era: "Devemos parar de reagir interiormente. Se alguém for grosseiro conosco (por exemplo), não devemos reagir internamente." E acrescenta algo que, com certeza, Tipos 5, 6 e 7 apreciam demais: "Aquele que conseguir isso será mais livre. " Porém nos adverte que "isso é muito difícil."

Para Gurdjieff conseguir considerar tudo "externamente sempre e internamente nunca" era tão importante que um dos aforismos inscritos no toldo do Study House, no Prieuré, dizia assim:

"O melhor meio de ser feliz nessa vida é poder considerar sempre exteriormente – nunca interiormente."

PARA ALÉM DOS NOVE TRAÇOS PRINCIPAIS.
A QUESTÃO DOS "EUS". O ENEAGRAMA INTERIOR

Após transcrever os exatos "retratos" psicológicos que Gurdjieff fazia dos tipos humanos, gostaria de compartilhar com você uma outra questão. Por que é que Gurdjieff não definiu um Eneagrama dos Traços Principais explicitamente, por que falava deles de um modo geral, de maneira que todos tinham que observar em si mesmos o modo pelo qual esses Traços Principais se manifestavam, tendo que hierarquizá-los com respeito ao que, em cada caso particular, era o "principal"? Por que preferia, em algumas ocasiões, ele mesmo mostrar (e às vezes de forma bastante rude) qual era o Traço Principal de alguns de seus discípulos para que eles aprimorassem a observação e lembrança de si?

Gurdjieff gostava de "pisar nos calos favoritos das pessoas", ou seja, "provocar" a identificação do Traço Principal de uma maneira que as pessoas se sentissem "chocadas" ao se aperceber de suas condutas mecânicas. Como observa muito corretamente Claudio Naranjo "(...) Gurdjieff explorou sua injunção ao insight e sua magistral confrontação (enquanto que) Ichazo trabalhou com o diagnóstico (...)".

Logicamente, como Tipo 8 que Gurdjieff era, seu jeito "agressivo" de confrontar as pessoas com seus Traços Principais era para ele o mais adequado e, com certeza, conseguia "despertar" a atenção de seus alunos para a necessidade de enxergá-los sem "nenhuma piedade".

Penso também que quando ele ensina sobre os diversos "eus" que podem atuar na vida psíquica de um sujeito, ele se referia, de algum modo, ao fato de que todos temos, em maior ou menor grau, algo de todos os "Traços" e suas combinações, sendo que, um deles, é o mais "forte" e característico. Seus ensinamentos sobre os diversos "eus" presentes no mundo interno são um alerta para nossa falta de "unidade" interior. Citado por Ouspensky, Gurdjieff diz a respeito: "O homem não tem 'Eu' individual. Em seu lugar há centenas e milhares de pequenos 'eus' separados, que, na maior parte das vezes, se ignoram, não mantêm nenhuma relação entre si ou, ao contrário, são hostis uns aos outros, exclusivos e incompatíveis. A cada minuto, a cada momento, o homem diz ou pensa 'Eu'. E a cada vez seu 'eu' é diferente [...] O homem é uma pluralidade. O seu nome é legião*." Visto deste ângulo, o Traço Principal seria, entre todos os "eus" que habitam nosso mundo interior, o "eu falso" mais forte, aquele que comanda a "máscara"/persona. Assim, por exemplo, um sujeito Tipo 8, que tem como Traço Principal seu caráter agressivo/luxurioso, ou melhor, que se excede em tudo o que faz, também teria os outros 8 "eus" eneagramáticos e todos os "eus" resultantes das "triplas" combinações. Isso significa que, no mesmo sujeito agressivo, podemos achar todas as restantes características eneagramáticas "negativas" e "positivas". Algumas serão relativamente fortes, outras se manifestarão de maneira mais "fraca", algumas fortalecerão o Traço Principal, outras o tornarão mais equilibrado. Algumas serão aliadas desse sujeito, outras agirão como "inimigos" internos. O que quero dizer é que, analisando o modo como Gurdjieff falava dos três problemas nucleares e o modo como descrevia os aspectos negativos das pessoas em relação aos seus diversos "eus", cheguei à conclusão de que para ele o mais importante é que a gente perceba que todos os "traços negativos" estão presentes em nós sempre e que não devemos considerar apenas o "principal" como o alvo do nosso trabalho de observação e lembrança interior.

No meu entendimento, este é o ponto mais valioso da técnica de Gurdjieff, porque nos lembra que o Eneagrama também está completo e em movimento constante nos nossos mundos internos; que o esquecimento de si mesmo e os três traços decorrentes de sua manifestação afetam todos nós; que a identificação está sempre presente em nossos atos e relacionamentos, que vivemos considerando internamente sempre e que todos os "traços" ligados a estes "núcleos" expressam a perda de contato com o Ser, com o "Eu real", com aquilo que poderíamos chamar, de acordo com as antigas tradições, o "observador silencioso", a "testemunha", a única capaz de ser verdadeiramente consciente porque é a consciência. Ao mesmo tempo, considerando o assunto deste modo, cada um de nós tem mais um elemento para a análise de si mesmo: quais os aspectos que além do Traço Principal devemos conquistar em nós mesmos, que Tipos Eneagramáticos podem servir como exemplo do que devemos ou não fazer, o que é que podemos aprender com esses "outros eus" que fazem parte dos nossos Eneagramas internos? Por acaso temos um "eu" que sofre "tolamente"?

* Do livro Fragmentos de um ensinamento desconhecido, de Ouspensky.

Temos um "eu" que não sabe amar? Temos um "eu" protelador? Um "eu" vaidoso? Um "eu" moralista? Um "eu" medroso? Ao mesmo tempo, e sabendo que para cada Traço ou Defeito Principal existe uma Virtude, um Poder em potencial que podemos desenvolver e atualizar, devemos concluir necessariamente que a conquista da Virtude por trás dos nossos Traços Principais nos permitirá desenvolver positivamente o potencial de todos os demais "eus" dos nossos Eneagramas internos. Ainda mais, talvez, atualmente alguns desses "eus" sejam já os nossos "aliados" psicológicos e só devemos nos tornar conscientes de suas "presenças". A questão dos "eus" na psicofilosofia de Gurdjieff é fundamental, já que a grande conquista interior passa necessariamente pelo controle, transmutação (ou até a "morte" de alguns deles) e governo de todos os pequenos "eus" por um único "Eu", permanente, reflexivo e consciente. Isto é o que torna "indivíduo" (sem divisões interiores) aquele que conquista a "máscara" ou personalidade. Enquanto o Traço Principal não for conquistado, o comando da "personalidade" ficará a cargo de um "falso eu" e de todos os que a ele estão atrelados. Só o profundo conhecimento de si mesmo poderá devolver o comando da persona ao "verdadeiro Eu". Não vou me estender mais aqui sobre este assunto, que trato com mais profundidade na minha obra Iniciação e autoconhecimento.

Enfim, o modo gurdjieffiano de mostrar o Eneagrama dos Traços Principais apontava, na minha opinião, na direção da descoberta de todos os nossos "problemas internos", de todos os 9 "eus" e seus "subtipos", com o objetivo de que o conhecimento de si mesmo fosse "completo", ou seja, que nossos Eneagramas internos se tornassem conhecidos para nós mesmos. Então, conhecer o Traço Principal é importante, não apenas como uma classificação, não apenas para repetir como "papagaio" "sou 4", "sou 7" ou "sou 3 com asa 2", como ouço por aí de pessoas para as quais o Eneagrama se tornou mais uma "armadilha" que só aumenta seu grau de "sono". Quando nos tornamos conscientes de nosso Traço Principal e conscientes dos demais "eus" que habitam nosso complexo e labiríntico mundo interior, quando podemos ser conscientes dos "eus" que, sem ser os principais, também influenciam no "esquecimento de si mesmo", na "identificação" e na "consideração interna", aí então é que o Eneagrama se torna verdadeiramente valioso e supera os limites de uma mera "tipologia psicológica". Desta forma se torna também uma ferramenta para que possamos lidar melhor com nossas "realidades" pessoais e individuais. Torna-se útil como instrumento que nos pode ajudar em nossas vidas profissionais e em nossos necessários e cotidianos relacionamentos.

Graças à minha experiência no estudo e prática destes conhecimentos, me dou conta, a cada dia, como se torna cada vez mais fácil para mim perceber o Traço Principal nas pessoas e observo o quanto isso é valioso para, usando a "consideração externa", compreendê-las melhor e obter delas o que realmente quero. Para alguns, isto pode parecer "manipulação", mas ninguém deixa de manipular em nenhum momento, só que os meios, as razões e o êxito ou fracasso dessa "manipulação" são o que a diferenciam. Seres que não conhecem o seu próprio Traço Principal e que não o reconhecem em outras pessoas, só conseguem resultados em seus relacionamentos e trabalhos por mero "acidente", ou porque uma pessoa consegue com o tempo ficar mais sensível às diferenças humanas devido às suas experiências e vivências. Gurdjieff reconhece que ele próprio se tornou com o tempo um especialista em descobrir o Traço Principal nas pessoas com as quais se relacionava, não somente com objetivos "espirituais " mas também com objetivos muito "concretos". Em sua última obra, A vida é real somente quando "Eu Sou" (La vida es real solo cuando "Yo Soy" Editorial Sirio, España, pág. 57) cujo título já é uma grande lição a ser compreendida, Gurdjieff revela como isso se tornou para ele uma tarefa constante:

"(...) qualquer um que eu conhecesse, por negócios, comércio ou qualquer outro motivo, fosse velho ou novo conhecido, e qualquer que fosse sua posição social, eu teria que descobrir imediatamente seu 'calo mais sensível' e 'pressioná-lo', preferivelmente com dureza."

Este deve ser o seu "espírito" ao se preparar para conhecer seu Traço Principal através desta obra, ou para, já conhecendo seu Traço Principal, aprimorar sua experiência por razões pessoais ou profissionais. Reconheça seu Traço Principal com sinceridade e descubra o seu próprio Eneagrama interior, no qual, todos os "traços" estão presentes. Conhecendo dessa forma seu "microcosmo", você poderá conhecer todos os "microcosmos" que o rodeiam e, finalmente, quando alcançar a total consciência de si mesmo, o "macrocosmo" poderá ser conhecido tal qual ele é, uma expressão maravilhosa dos milhares de "rostos" daquilo que chamamos "DEUS". Agora sim vamos ver como Gurdjieff "retrata" cada um dos nove Traços ou Defeitos Principais:

Definições dos Nove Traços ou Defeitos Principais segundo Gurdjieff

Após analisar detidamente os Traços ou Defeitos Principais definidos por Gurdjieff e confrontá-los com os que outros pesquisadores do Eneagrama destacam, baseados nas descobertas de Ichazo, consegui isolar todas as definições com as quais ele os "retratava" tão magistralmente. Novamente os livros Fragmentos de um ensinamento desconhecido e Gurdjieff fala a seus alunos foram fundamentais para realizar essa pesquisa. Vejamos por Grupos.

Traços Principais dos Tipos 8, 9 e 1 (Centro do Movimento-Questão Nuclear: Esquecimento de Si Mesmos)

Tipos 8: "Existem diversas espécies de consideração. Na maior parte dos casos, o homem se identifica com o que os outros pensam dele, com a maneira com a qual o tratam, com sua atitude para com ele [...] pensa sempre que as pessoas não o apreciam o suficiente [...] Tudo isso o aborrece, o preocupa, o torna desconfiado; desperdiça em conjecturas ou em suposições enorme quantidade de energia; desenvolve nele, assim, uma atitude desconfiada e hostil para com os outros. Como olharam para ele, o que pensam dele, o que disseram dele, tudo isso assume a seus olhos enorme importância. E considera não só as pessoas, mas a sociedade e as condições históricas. Tudo o que desagrada a tal homem lhe parece injusto, ilegítimo, falso e ilógico. E o ponto de partida de seu julgamento é sempre que as coisas podem e devem ser modificadas. A 'injustiça' é uma dessas palavras que servem freqüentemente de máscara a [este tipo de] 'consideração' [interna]. "

Tipos 9: "[...] Sem auxílio exterior, um homem nunca pode se ver. Por que é assim? Lembrem-se. Dissemos que a observação de si conduz à constatação de que o homem se esquece de si mesmo sem cessar. Sua impotência em lembrar-se de si é um dos traços mais característicos de seu ser e a verdadeira causa de todo o seu comportamento. Essa impotência manifesta-se de mil maneiras. Não se lembra de suas decisões, não se lembra da palavra que deu a si mesmo, não se lembra do que disse ou sentiu há um mês, uma semana ou um dia ou apenas uma hora. Começa um trabalho e logo esquece por que o empreendeu, e é no trabalho sobre si que esse fenômeno se produz com especial freqüência."

Tipos 1: "Outro exemplo, talvez pior ainda, é o do homem que considera que na sua opinião, 'deveria' fazer algo, quando na realidade, não tem que fazer absolutamente nada. 'Dever' e 'Não dever' é um problema difícil; em outras palavras, é difícil compreender quando um homem realmente 'deve' e quando 'não deve' (fazer algo)."

Traços Principais dos Tipos 2, 3 e 4 (Centro Emocional-Questão Nuclear: Identificação)

Tipos 2: "Há duas espécies de amor. Um é o amor escravo. O outro deve ser adquirido pelo trabalho sobre si. O primeiro não tem valor algum; só o segundo, o amor que é fruto de um trabalho interno, tem valor. É o amor de que todas as religiões falam. Se você amar, quando 'isso' [a máscara] ama, esse amor não depende de você e não haverá nenhum mérito nisso. É o que chamamos 'amor de escravo'. Você ama até mesmo quando não deveria amar. As circunstâncias fazem-no amar mecanicamente [...]"

Tipos 3: "Sugiro que cada um faça a si mesmo a pergunta 'Quem sou eu?' Estou certo de que 95% de vocês ficarão perturbados... Isso prova que um homem viveu toda a sua vida sem se fazer essa pergunta e considera perfeitamente normal que ele seja 'algo', e até mesmo algo muito precioso, algo que jamais pôs em dúvida. Ao mesmo tempo, é incapaz de explicar a outra pessoa o que esse algo é, incapaz de dar a menor idéia desse algo, porque ele próprio não o sabe. E se não sabe, não será simplesmente porque esse algo não existe, mas apenas se supõe existir? Não é estranho que fechem os olhos, com tão tola complacência, ao que realmente são, e passem a vida na agradável convicção de que representam algo precioso? Esquecem de ver o vazio insuportável por trás da soberba fachada criada por seu auto-engano e não se dão conta de que essa fachada só tem um valor puramente convencional. "

Ouspensky lembra que alguém perguntou: "O que é que não compreendemos?" E Gurdjieff respondeu: "Estão de tal modo habituados a mentir, tanto a si mesmos como aos outros, que não encontram nem palavras nem pensamentos, quando querem dizer a verdade. Dizer a verdade sobre si mesmo é muito difícil. Antes de dizê-la, deve-se conhecê-la. Ora, não sabem nem mesmo em que ela consiste [...]."

Tipos 4: "Qual o papel do sofrimento no desenvolvimento de si?" Ele respondeu: "Existem duas classes de sofrimento: consciente e inconsciente. Somente um tolo sofre inconscientemente. Na vida existem dois rios, duas direções. No primeiro rio, a lei é somente para o rio, não para as gotas d'água. Nós somos as gotas. Num momento uma gota está na superfície, num outro momento está no fundo. O sofrimento depende da sua posição. No primeiro rio, o sofrimento é completamente inútil, porque é acidental e inconsciente. Paralelo a esse rio tem um outro. Neste outro rio existe outra classe de sofrimento. A gota do primeiro rio tem a possibilidade de passar ao segundo. 'Hoje' a gota sofre porque 'ontem' não sofreu o suficiente. Aqui opera a Lei de Retribuição. A gota também pode sofrer por antecipação, tarde ou cedo tudo se paga. Para o Cosmo o tempo não existe. O sofrimento pode ser voluntário e somente o sofrimento voluntário tem valor. A gente pode sofrer simplesmente porque se sente infeliz. Ou pode sofrer por 'ontem' para preparar-se para o 'amanhã'. Repito: somente o sofrimento voluntário tem valor. "

Traços Principais dos Tipos 5, 6 e 7 (Centro Intelectual-Questão Nuclear: Consideração Interna)

Tipos 5: "É impossível lembrar-se de si mesmo. E não podemos nos lembrar, porque queremos viver unicamente pelo mental... Talvez vocês se lembrem do que dissemos do homem: nós o comparamos a uma atrelagem com um amo [o Ser], um cocheiro [Centro Intelectual], um cavalo [Centro Emocional] e uma carruagem [Centro do Movimento].