O Eneagrama - tipos

Oitavo Traço

O hostil "justiceiro" desconfiado

"Existem diversas espécies de consideração. Na maioria dos casos, o homem se identifica com o que os outros pensam dele, com a maneira como o tratam, com sua atitude para com ele [...] pensa sempre que as pessoas não o apreciam o suficiente [...] Tudo isso o aborrece, o preocupa, o torna desconfiado; desperdiça em conjecturas ou em suposições enorme quantidade de energia; desenvolve nele, assim, uma atitude desconfiada e hostil para com os outros. Como olharam para ele, o que pensam dele, o que disseram dele, tudo isso assume, a seus olhos, enorme importância.

E considera não só as pessoas, mas a sociedade e as condições históricas. Tudo o que desagrada a tal homem lhe parece injusto, ilegítimo, falso e ilógico. E o ponto de partida de seu julgamento é sempre que as coisas podem e devem ser modificadas. A 'injustiça' é uma dessas palavras que servem freqüentemente de Traço a [este tipo de] consideração [interna]."

Os dois parágrafos acima, citados por P. D. Ouspensky em Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, são de G. I. Gurdjieff.

E agora, vai encarar este desafio, sim ou não? Está desconfiado? Não se interessa por estas questões sem importância? O quê? Sei lá, o problema é seu, certo? Bom, chega de conversa fiada e vamos começar. Se você sente que mais de 50% das seguintes frases, afirmações e perguntas refletem sua personalidade, é provável ("provável" o quê?, ou é ou não é, pô...! se enxerga, tá?) que você seja um Tipo 8. Se eu sei quem é você? Nem me interessa. Por acaso você sabe quem sou eu? Então, acho que o melhor será fazer um pacto, certo? De repente, juntos, nos tornamos mais poderosos!:

"Procuro ser leal às pessoas, quem não me corresponder está em maus lençóis." – "O que as pessoas esquecem é que paciência tem limites e meu ouvido não é penico!!!" – "Para mim é profundamente irritante ser atendida por uma determinada funcionária, pois é muito preguiçosa, nunca sabe onde está, quanto é, não sabe nada !" – "A vida é uma luta constante, só me aparecem desafios, só me meto em coisas complicadas, mas no fundo até que gosto." – "Tenho dificuldades de aceitar opiniões contrárias às minhas." – "Preciso controlar tudo, apesar de ter percebido quanto isso me faz mal no sentido de gastar muita energia..." – "Sinto que posso conquistar o mundo!" – "Como obter mais poder?" – "Injustiças eu não suporto de jeito nenhum !" – "Quando perco a paciência mando tudo para o inferno!" – "Abraço com muita determinação as causas consideradas por mim justas e verdadeiras." – "Você acha que não percebi suas intenções?" – "Se alguém me trair, esse alguém está morto em vida para mim!" – "Tornei-me mais agressiva só com o olhar, com as palavras..." – "Nunca estou satisfeito, sempre desejo conquistar mais e mais !" – "Quando vejo pessoas fracas ou oprimidas, sinto muita raiva e faço qualquer coisa para ajudá-las."

REDESCOBRINDO A SIMPLICIDADE E A LEVEZA DA INOCÊNCIA: A VIRTUDE QUE CONDUZ AO PODER VERDADEIRO

Nossa aluna Heida tentou explicar porque achava necessária sua "Traço 8": "Às vezes penso que é necessária para a sobrevivência do animal que mora em mim. (...) Reconheço sua utilidade para conseguir me colocar em qualquer situação. Ano passado, senti alegria e tristeza de saber que '8' era a minha 'Traço' (...) fiquei realçando qualidades e defeitos através do comportamento, como se a conscientização do fato fosse uma afirmação para a Traço e daí veio o comportamento questionando: 'Vai querer me destruir?' (...) Parece infantil a questão, porém passei à fase de sentir tristeza devido às (minhas) sombras (...) Fiquei mais atenta e passei a trabalhar o controle dos defeitos com mais vontade (...)"

No final do seu depoimento ela escreveu o mais importante para os possuidores desta Traço compreenderem: "Bom, espero ter conhecido o caminho que me leve a viver mais leve!"

Eureka! Tipos 8 devem conseguir "viver mais leve". O primeiro passo é deixarem de ser agressivos. Mas como? Simples! Voltando a confiar nas pessoas e no poderoso fluir da existência. Isso lhes permitirá abandonar suas armaduras e perceber que nem sempre devem ir "armados" para realizar e/ou relacionar-se com pessoas e/ou projetos. Tudo bem, o mundo é hostil, é uma selva na qual cada um deve lutar pelos seus próprios interesses e essas são as regras do jogo que garantem a sobrevivência e a conquista do poder. Mas será que é assim mesmo? Sempre? Não existirão outras formas de alcançar esse poder tão desejado? E será que é isso mesmo o que dá contentamento?

Observe como são "nada inocentes" suas razões: "os outros são potencialmente inimigos, os outros não querem que eu triunfe, os outros, às vezes, são obstáculos para alcançar meus objetivos, etc. etc. Resumindo, o mundo é meu inimigo e eu vou lutar até submetê-lo ao meu controle". Estes e outros "dogmas" desta Traço tomam as mais diversas formas mentais, moldam os planos, determinam as atitudes para com os demais e motivam os atos. É como se parecesse impossível agir de outros modos, porque esses "outros modos" parecem "fracos demais", "simples demais". Observe o seguinte: O "programa" que formou a Traço diz que você está sozinho(a) contra o mundo, que ninguém vai se preocupar com você, que ninguém vai mover um só alfinete para colaborar nos seus projetos e objetivos e que, se isso chega a acontecer, não é por amor, não é gratuito, mas implicará necessariamente uma espécie de "contrato", um "compromisso" que terá que aceitar se deseja atingi-los. Ou seu "programa" diz que você pode fazer e obter o que quiser sozinho(a), por que você é auto-suficiente, forte e capaz de lutar contra tudo e todos e que nada se interporá entre você e suas metas? Em qualquer dos casos, perceba quanta falta de "inocência" e reflita uns instantes em como isso o esgota. Para Tipos 8, parece não existirem outros caminhos, senão aqueles tortuosos, difíceis e cheios de perigos e inimigos a serem enfrentados. Eis sua falta de inocência. Porque entre os significados que esta palavra esconde, existe um que tem a ver com essa nova atitude interior na qual Tipos 8 se tornam Simples. "Simplicidade" é um dos significados da "Inocência". Na simplicidade, os Tipos 8 podem descobrir que também existem caminhos suaves, em que se encontram pessoas amigas, em que não se precisa lutar o tempo todo, em que se pode ficar aberto, em que não se precisa "pressionar" nem provocar. Na simplicidade existe a falta de preconceito, tudo fica mais leve e se descobrem "jeitos" de se fazer mais sutis, porém não menos efetivos. A simplicidade no gesto e na palavra diminui e esgota a agressividade. A inocência permite que a vida se mostre de outros modos mais leves. Não se precisa "controlar" tudo e todos sempre, porque "a inocência confia". Pode-se confiar, não existem riscos sempre, nem sempre existem "armadilhas". A simplicidade da inocência implica estar "contente": é sentir-se satisfeito. Na satisfação não existe excesso, nem pode haver luxúria porque "contentar-se" também significa "tranqüilizar-se" e "limitar-se".

Tudo bem, acho que está bom por enquanto, não? Finalizo, então, com uma passagem do Tao Te King de Lao Tse:

"Podes abarcar a Unidade
sem abandonar o Tao?
Podes dominar tua força vital
e chegar a ser como uma criança?

Podes purificar tua contemplação oculta e
chegar à perfeição?
Podes amar aos homens e governar o Reino
sem perder tua paz interior?
Podes, enquanto se abrem e fecham as Portas do Céu,
manter-te em calma?
Podes penetrar tudo com tua clareza
e potência interior,
renunciando ao conhecimento?

Gerar e não possuir.
Produzir e não conservar
Dirigir e não dominar.
Nisto consiste o Mistério da Vida.

Quem assim o entende
compreende o Caminho oculto."

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