O Eneagrama - tipos
Sétimo Traço
O narcisista gozador
| "Liberdade é seriedade. Não essa
seriedade de sobrancelhas franzidas, lábios fechados,
gestos cuidadosamente medidos e palavras filtradas entre
os dentes, mas a seriedade que significa determinação
e persistência na busca, intensidade e constância,
de modo que, mesmo nos momentos de repouso, o homem prossegue
com sua tarefa principal. açam a si mesmos a pergunta:
São livres? Muitos serão tentados a responder
que sim, se estiverem num estado de relativa segurança
material, sem preocupação com o amanhã
e se |
|
não dependerem de ninguém para sua subsistência
Fou para a escolha de suas condições de vida.
Mas a liberdade está aí? É somente uma
questão de condições externas?"
"O homem, bem no seu íntimo, 'exige' que todo
mundo o tome por alguém notável, a quem todos
deveriam constantemente testemunhar respeito, estima e admiração
pela sua inteligência, pela sua beleza, sua habilidade,
seu humor, sua presença de espírito, sua originalidade
e todas as suas outras qualidades. Essas 'exigências',
por sua vez, baseiam-se na noção completamente
fantasiosa que as pessoas têm de si mesmas, o que acontece
com muita freqüência, mesmo com pessoas de aparência
muito modesta..." Os dois parágrafos acima reúnem
palavras de Gurdjieff, anotadas por seus discípulos.
Fique sério uns instantes. Isto é importante
para você. Se você sente que mais de 50% das seguintes
sentenças e afirmações refletem sua personalidade,
talvez você seja um Tipo 7. O quê? Não,
não precisa se comprometer a responder de imediato!
Fique à vontade. Enquanto isso poderia ligar para algum
amigo e, com voz misteriosa, dizer a ele que descobriu o E-ne-a-graa-maaaa!
Já imaginou, que legal? Rá, rá, rá!
"Gosto de pregar peças nos meus amigos!"
– "Guardo as melhores lembranças da minha
infância e juventude." – "Sou um pouco
(ou muito) narcisista, simplesmente me adoro!" –
"Me considero uma pessoa muito versátil, sei fazer
muitas coisas diferentes." – "Tento manter
sempre um alto astral!" – "Às vezes
me comprometo além da minha capacidade..." –
"Sempre acho um significado positivo em tudo. Sou uma
idealista e otimista inveterada!" – "Não
gosto de compromissos porque podem atrapalhar minhas opções."
– "Adoro explorar territórios novos. Gostaria
de poder voar ou de colocar uma mochila nas costas e sair
viajando pelo mundo!" – "O tempo e o espaço
são problemáticos para mim." – "Não
gosto de combinar nada com antecedência, só em
cima da hora decido o que fazer." – "Gosto
de cozinhar por puro prazer." – "Não
gosto de cargos e fico chateado em ambientes muito burocráticos."
– "Planejo fazendo programas que eliminem o tédio
e intensifiquem os prazeres da vida." – "Minha
grande paixão são as idéias, os novos
conhecimentos e desafios." – "Vamos ficar
numa boa, tá?" – "Me considero uma
pessoa muito criativa e audaciosa." – "Sei
que na realidade tenho medos, mas os escondo, para não
atingir o prazer com os mesmos!?" – "Quero
ser livre." – "Não gosto de 'rótulos'."
– "Planejar me dá um grande prazer, executar
nem sempre consigo."
CONQUISTANDO A VIRTUDE DO EQUILÍBRIO
Já tratei desta virtude quando me referia aos riscos
da "gula" e da "intemperança".
O Equilíbrio que Tipos 7 devem conquistar está
atrelado ao conceito de "Discernimento", ou seja:
permitir-se a escolha certa, reflexiva e consciente de tudo
e qualquer coisa. No Equilíbrio está implícita
a idéia de "saber pesar", de saber qual o
"fiel da balança", quais os "limites".
Aqui a palavra limite não deve ser atrelada à
idéia de perda da liberdade e sim à idéia
de "temperança". No caso de Tipos 7, a virtude
do Equilíbrio tem a ver com as de temperança
e sobriedade.
É interessante notar que a palavra "equilíbrio"
tem também uma relação estreita com as
palavras "harmonia" e "igualdade". Também
é interessante refletir que "equilíbrio"
se define algumas vezes como "capacidade de agüentar
uma situação difícil", segundo o
Dicionário Cuyás de Portugués-Español
/ Espanhol-Português (que uso com freqüência
para aperfeiçoar meu "portunhol"). Portanto,
não fuja das situações difíceis
e dolorosas, não as ignore. Elas fazem parte da existência.
Tente obervar como a procura de prazer sem medida o afasta
da possibilidade de ir fundo em seus relacionamentos e responsabilidades.
Não exagere sua importância. Fundamentalmente,
o equilíbrio se perde quando você "perde
o controle" de si mesmo e das suas escolhas e decisões.
Todos estes "conselhos" apontam ao mesmo ponto:
nunca exceder-se. O excesso está relacionado com a
tendência à luxúria do Ponto 8 e guarda
relação com a atitude agressiva que caracteriza
este seu "companheiro" eneagramático, que
tanta influência exerce em Tipos 7. O segredo do equilíbrio
está nessa frase bíblica que diz: "Tudo
está permitido ao homem embaixo do sol, mas nem tudo
lhe é conveniente."
O desequilíbrio dos Tipos 7 se dá quando estes
exageram na "consideração interna"
e em suas fantasias, quando as doses de prazer almejadas são
mentalmente exageradas, gerando-se então um círculo
vicioso semelhante ao que a psicologia moderna chama de Círculo
da Insatisfação, Frustração e
Desmoralização, ou Círculo IFD. A procura
do máximo de prazer oferecido por todos os estimulantes
externos (situações, vivências, projetos,
opções variadas, etc.) é Idealizada,
o que gera uma fuga ao reino da fantasia e dos sonhos, com
o qual todo o provável prazer futuro que virá
como produto dessas experiências, é inflacionado.
As expectativas aumentam ilimitadamente junto com as possibilidades
de achar insatisfatórios os resultados e/ou frutos
dessas experiências. Então, quando o "contato"
com a realidade demonstra que o fruto dessas experiências
não era tão "maravilhoso" assim, sobrevém
a Frustração. Esta provoca, às vezes,
a sensação de que talvez faltou algo e gera
um processo de Desmoralização, de abatimento
da moral e de desapontamento/decepção, ou, o
que eu acho mais adequado neste caso, gera um processo de
desilusão no sentido de que a fantasia e o sonho não
se realizam, porque no fundo só podiam existir fora
da realidade.
RELACIONANDO LIBERDADE E RESPONSABILIDADE COM O AUTOCONHECIMENTO
Os Tipos 7 sempre reclamam para si a liberdade e a amam.
"Eu sou livre" é uma de suas frases prediletas.
Quando se trata de sujeitos equilibrados, este senso de liberdade
é positivo. Eles produzem ao seu redor uma atmosfera
aberta, na qual tudo pode ser expressado e tudo faz parte
da harmonia que atribuem a uma existência sem cercas
nem obstáculos de nenhuma espécie. Para eles,
a vida é um maravilhoso presente e, como expressão
de agradecimento, permitem que tudo se manifeste plenamente
e se surpreendem sempre com tudo o que de positivo ela oferece.
Sentem que a vida é inesgotável e "dá
para todos" sem achar que correm o risco de perder sua
parte dessa dádiva preciosa que é a existência.
Por esta razão, são entusiastas e muito falantes,
cheios de idéias e soluções "criativas"
para tudo. As pessoas se sentem atraídas por esse jeito
"generalista" que eles passam. Sabem tudo, conhecem
tudo. Praticam tudo. O conceito de liberdade para eles está
atrelado tanto ao fato de ter muitas opções
e muitas atividades sempre, quanto à idéia de
não ter "rótulos" nem limites. Vejamos
como nossa aluna nos explica isto:
"Tenho muitas atividades, estudo vários assuntos,
buscando sempre o novo. Não gosto de compromissos porque
podem atrapalhar as minhas opções em algum momento.
Quero ser livre. Gosto de solidão, ficar só
para realizar as coisas das quais gosto. Enfim, creio que
me é mais interessante comunicar-me do que realmente
relacionar-me. Relação só admito com
pessoas com as quais me sintonizo, a nível espiritual
e intelectual. Não aceito com facilidade a rotina.
(...) Tenho pressa, porque necessito desempenhar muitos papéis
e muitas funções (...) A questão dos
limites é difícil, quando me dedico a algo,
esqueço assuntos também relevantes. Não
gosto de combinar nada com antecedência, só próximo
à realização decido o que fazer (...)
Não admito que me rotulem, por exemplo, quanto a ser
religiosa ou mística, ou racional ou emocional porque
creio ser um pouco de tudo (...)"
Porém quando se trata de Tipos 7 menos equilibrados,
este "amor pela liberdade" pode ficar "torto"
e até perigoso. Como já mencionei anteriormente,
pode provocar muitos problemas e, o que é mais grave,
uma séria distorção entre a relação
existente entre responsabilidade e liberdade. Como lembra
a raposa ao principezinho no conto de Saint-Exupéry
somos responsáveis pelo que cativamos o que Tipos 7
tendem a esquecer quando centrados demais em si mesmos. O
narcisismo joga um papel importante nesta distorção
do significado da própria liberdade. A liberdade é
válida somente para eles, não para os outros.
Parece não implicar responsabilidades. Com a mesma
facilidade com que as pessoas, situações, experiências
e coisas são desfrutadas, podem ser deixadas ou abandonadas.
O desfrutar da liberdade é um direito só deles.
Existe aqui um sutil movimento negativo ao Ponto 5 do Eneagrama:
a liberdade só é válida para mim e seu
gozo e benefícios serão só meus; os outros
apenas serão "utilizados" para eu atingir
meus propósitos. Por esta razão, alguns Tipos
7 se tornam odiados pelo que cativaram porque, é claro,
o fizeram apenas com o objetivo de obter o melhor para eles
e só para eles. Alguns se tornam espertos na arte de
fugir de qualquer situação ou relacionamento
que os tenha entediado ou nos quais já não tenham
mais interesse.
Ao mesmo tempo e devido a ficarem objetivando apenas seu
próprio benefício, os Tipos 7 passam, paradoxalmente,
a serem escravos das exterioridades que procuram sem discernimento
e sem limites, na ânsia de sentirem-se capazes de fazer
tudo e viver tudo. A capacidade de discernir, ou seja, enxergar
o que é mais útil ou o que é menos útil,
o que é mais conveniente e o que é menos conveniente,
etc. se perde. A liberdade, então, também se
perde. Este é o momento mais paradoxal na vida de Tipos
7 desequilibrados.
Os excessos, então, tomam conta dos Tipos 7 quando
estes decidem que ninguém nem nada pode estar entre
eles e os objetos de seus planos, desejos, e vontades. Quando
isto acontece, relacionamentos são um estorvo, o trabalho
é abandonado, o matrimônio e os filhos parecem
um empecilho. No fundo, se tornam odiosamente egocêntricos
e passam a não enxergar as necessidades alheias.
Acontece, então, o risco de achar que as pessoas,
os trabalhos, o matrimônio e outros relacionamentos,
assim como os deveres que o viver em sociedade impõe
sejam tidos como "prisões". Burlam a autoridade,
não respeitam as convenções, se tornam
"rebeldes sem causa", e anarquisam os ambientes
nos quais atuam, passando por cima de normas e regulamentos,
o que não só lhes pode provocar graves problemas
pessoais, como também causar grandes prejuízos
à(s) pessoa(s) com eles relacionadas profissional ou
familiarmente.
No começo deste capítulo, citei ensinamentos
de Gurdjieff sobre questões relacionados com este Tipo
Eneagramático e seu Traço Principal. Em especial
sobre os conceitos de liberdade e os erros de uma auto-imagem
inflacionada. Gostaria que você voltasse a ler essas
citações agora.
Aqueles que, como você, estão interessados em
conhecer a si mesmos e reconhecem que isso implica uma necessária
entrega a uma vontade distinta da, podem estar muito perto
do que significa conseguir a verdadeira liberdade. Talvez
seja necessário aprender que a renúncia à
nossa limitada vontade (às vezes inexistente, porque
chamamos de "minha vontade" apenas os nossos desejos
mais fortes), seja o caminho para conhecer a verdadeira Vontade.
Talvez isso signifique renunciar ao que habitualmente chamamos
de nossas liberdades, para conhecer a Verdade que nos fará
realmente livres. Talvez seja esse o segredo para "perdendo
a vida, ganhar a Vida", como dizem alguns textos sagrados.
O anseio que muitos Tipos 7 declaram sentir pelo conhecimento
de si mesmos, quando acabam de discernir os "limites"
e "perigos" que a pseudoliberdade e a pseudovontade
escondem, só poderá ser satisfeito quando eles
olhem além de seus espelhos narcisistas e decidam dar
o "grande pulo" em direção à
fonte na qual a Gula e o Desequilíbrio desaparecerão
para sempre: o Ser. Isso requer um ato Corajoso (Ponto 6)
e, ao mesmo tempo, implica a decisão de confiar e percorrer
o mundo interior com segurança e confiança absolutas
(Ponto 8) nos sinais fiéis e mapas fidedignos que nos
deixaram aqueles que conheceram a Liberdade Total do Ser.
Como sei que muitos Tipos 7 desejam iniciar o caminho do autoconhecimento
(ou estão trilhando algum para consegui-lo), e ao mesmo
tempo duvidam quando chega o momento de decidir seguir um
caminho objetivo e não fantasioso que conduza até
o Ser (ou estão duvidando do seu "caminho"
atualmente), vou concluir esta parte solicitando a você
que pense nestes conselhos que Gurdjieff deixou não
somente para Tipos 7, mas também para todos os que
procuram níveis superiores de consciência:
"A renúncia às suas próprias decisões,
a submissão à vontade de outro, podem apresentar
dificuldades insuperáveis para um homem, se não
conseguiu dar-se conta previamente de que assim não
sacrifica nem modifica realmente nada em sua vida, uma vez
que, durante toda a sua vida, esteve sujeito a alguma vontade
estranha e nunca tomou, verdadeiramente, nenhuma decisão
por si mesmo. Mas o homem não é consciente disso.
Considera que tem o direito de escolher livremente. E é
duro para ele renunciar a essa ilusão de que ele próprio
dirige e organiza sua vida. No entanto, não existe
trabalho possível sobre si, enquanto as pessoas não
se tiverem libertado dessa ilusão.
O homem deve dar-se conta de que não existe; deve
dar-se conta de que nada pode perder, porque nada tem a perder;
deve dar-se conta de sua nulidade no sentido amplo do termo.
Esse conhecimento de sua própria nulidade, e somente
ele, pode acabar com o medo de submeter-se à vontade
de outro. Por mais estranho que possa parecer, esse medo é,
de fato, um dos maiores obstáculos que um homem encontra
no seu caminho. O homem tem medo de que o façam fazer
coisas contrárias a seus princípios, a suas
concepções, a suas idéias. Além
disso, esse medo produz imediatamente nele a ilusão
de que realmente tem princípios, concepções
e convicções que, na realidade, nunca teve e
seria incapaz de ter (...)
Freqüentemente o medo de submeter-se à vontade
de outro é tal, que nada pode superá-lo.
O homem não compreende que a subordinação
à vontade de outro, à qual daria conscientemente
sua adesão, é o único caminho que pode
conduzi-lo à aquisição de uma vontade
própria." |