O Eneagrama - tipos

Sexto Traço

O medroso ambivalente

O mestre Gurdjieff diz: "O homem, às vezes, se perde em pensamentos obsessivos, que voltam e tornam a voltar em relação ao mesmo objeto, às mesmas coisas desagradáveis que imagina, e que não apenas não ocorrerão, mas, de fato não podem ocorrer.

Esses pressentimentos de aborrecimentos, doença, perdas, situações embaraçosas, se apoderam muitas vezes de um homem a tal ponto que assumem a forma de sonhos despertos. As pessoas deixam de ver e ouvir o que realmente acontece, e, se alguém conseguir provar a elas, num caso preciso, que seus pressentimentos e medos são infundados, elas chegam a sentir certa decepção, como se tivessem sido frustradas de uma perspectiva agradável (...)

O medo inconsciente é um aspecto muito característico do sono (...)

As pessoas não suspeitam até que ponto estão em poder do medo. Esse medo não é fácil de definir. Na maioria dos casos, é o medo de situações embaraçosas, o medo do que o outro pode pensar. Às vezes o medo se torna quase uma obsessão maníaca."

Se você acha que mais de 50% das seguintes frases, afirmações e perguntas refletem a sua personalidade, provavelmente você é um Tipo 6. Por favor, não tenha medo. Se quiser pode ler este capítulo outro dia, tá... Hã?: o que acontecerá, se você não sabe qual é seu Tipo? Não sei! O que é que você está imaginando?! Não! Espere, não fique assim, por favor. Ora, o Eneagrama só tem sido benéfico para as pessoas, acredite. Ainda desconfia? Tudo bem. Relaxe, pelo amor de Deus!

"Não gosto de autoritarismos." – "Tomar decisões é algo que não gosto e tento evitar sempre que possível." – "Preciso da aprovação alheia." – "Sempre me demoro a concretizar algo, pois fico imaginando as possíveis conseqüências..." – "Na verdade não gosto nada de falar de mim. Além de não gostar, não tenho a menor vontade." – "Não aceito ser controlada ou obrigada a fazer alguma coisa." – "Quando alguém ri atrás de mim eu acho que é de mim." – "Eu sou muito inseguro, tenho medo de qualquer situação nova ou daquelas que eu acho perigosas pois podem não dar certo e me machucar." – "Tenho pavor de errar; Às vezes sou capaz de fazer qualquer coisa, custe o que custar!; O medo de perder as pessoas me leva a evitar qualquer tipo de conflito." – "Às vezes a tensão é tanta que acabo tomando decisões que aparecem como muito corajosas." – "Minha imaginação é poderosa e provoca uma grande ansiedade." – "Gosto de trabalhar em equipe, sou muito leal e sincero." – "Será que vou errar de novo?" – "Quando acho que não dá para fugir, enfrento mesmo a situação!!" – "Não tente se impor, tá!?... não tente...!" – "Quando ouço algum barulho esquisito de noite, minha imaginação explode: será um ladrão (a violência urbana é terrível, hoje o jornal da TV mostrou aquele assalto), será um ladrão... ?!!" – "Odeio quando ele fica calado..." – "Sentir-me seguro é essencial para mim."

CONQUISTANDO A VIRTUDE DA CORAGEM E DESENVOLVENDO UMA "FÉ CONSCIENTE"

As Virtudes a serem conquistadas pelos Tipos 6 são muito especiais. A "Coragem" implica literalmente um "agir com o coração", ou seja, um agir a partir de um Centro Emocional equilibrado (Ponto 7) e livre do temor (desidentificação ou desapego das imagens negativas fixadas pela idéia de uma ameaça sempre latente), o que permite essa visão clara da realidade, limpa de todas as ameaçadoras e irreais imagens internas. Naturalmente, isto conduz a uma ação relaxada no plano físico. De acordo com Helen Palmer: "A coragem depende da capacidade corporal de agir adequadamente a partir de um estado não pensante da mente." Realizar é melhor que apenas imaginar realizar ou temer realizar. Devemos lembrar novamente que será o controle imaginativo que permitirá "agir com o coração" e não com a cabeça. Quando nos atrevemos a agir sem temor, podemos descobrir que muitos " tigres são de papel". Os Tipos 6 podem conquistar uma tremenda capacidade de ver além das aparências, desenvolvendo sua natural intuição, se começarem a confrontar seus medos com a realidade. Quando a realidade é confrontada fisicamente, temos a possibilidade de voltar a ter segurança nas nossas capacidades e nos nossos atos. Aprenda a confiar e conhecer melhor seu Centro Físico. Como já falei na análise de outras Traços, no IDHI®, temos uma prática ao ar livre em que as pessoas ficam em pé formando um círculo e seus movimentos são deliberadamente limitados assim como suas reações emocionais. Ou seja, não podem sair do seu lugar, nem gritar ou pular fora do círculo. No centro, o instrutor está com um bastão de madeira de um metro de comprimento (mais ou menos) e adverte que o bastão será lançado a qualquer um e a qualquer momento, sem prévio aviso. De início as pessoas ficam ansiosas, temerosas de serem atingidas pelo bastão, até que, aos poucos, começam a perceber que não é "tão perigoso assim" e como resulta fácil receber o "ameaçador" bastão, sem tensão e sem medo. Logo, numa dinâmica de grupo, é muito engraçado ouvir que as pessoas imaginaram muitas coisas em relação a essa prática milenar. Umas comentam que achavam que seriam golpeadas na cabeça, outras que o bastão poderia atingir um olho, outras que sentiam que quase não podiam mover-se. Enfim, o medo os paralisa de início e lhes impede a realização de movimentos com os quais seus Centros Físicos possam pegar o bastão sem que este lhes provoque nenhum dano. Eles percebem que o que temiam era apenas "imaginário". Logo se pede que eles aprendam a agir cotidianamente de acordo com o que compreendem e percebem nessa prática psicofísica. Os resultados são excelentes.

Entre os Quatro Verbos chamados "Mágicos" (Ousar, Querer, Saber e Calar), sobre os quais escrevi no meu primeiro livro, os que devem ser mais vivenciados pelos Tipos 6 são os verbos "Ousar e Querer". Ambos implicam ações concretas e ambos estão relacionados com profundos sentimentos e não apenas com pensamentos. A autoconfiança só pode ser gerada a partir de "contatos" efetivos com a realidade e não apenas com atos contrafóbicos. Os atos contrafóbicos surgem do Centro Intelectual e paralisam o "sentir", paralisam as emoções como se quisesse "ignorar" o que vai acontecer após sua irreflexiva execução. Não é ousadia, não é querer e sim seu oposto: o ato contrafóbico. Isto é fácil de comprovar quando pessoas que sofrem de fobias conseguem ser curadas mediante metódicos e pacientes processos de sensibilização e conscientização, através dos quais passam a perceber que aquilo que temem, simplesmente, não é real e não acontece.

O VALOR DA FÉ CONSCIENTE

Em relação ao desenvolvimento do que Gurdjieff chamava de "Fé consciente", primeiro é importante ter presente que a Fé verdadeira é aquela definida brilhantemente pelo Apóstolo Paulo na sua carta aos Hebreus como: a "certeza do que se espera e a convicção do que não se vê" e que as outras duas expressões de fé, os Tipos 6 e todos nós temos que aprender a reconhecer e superar.

Gurdjieff lembra esta questão importante com o seguinte aforismo que só comentarei em parte, dada a sua profundidade e importância:

A Fé da consciência é liberdade, a fé do sentimento é fraqueza, a fé do corpo é estupidez.

Quando você "se atreve" a fazer algo ou a enfrentar uma situação contrafobicamente, poderíamos dizer que está agindo emocionalmente alterado(a). Nesses instantes, sua "fé" está fundamentada na sua fraqueza ("a fé do sentimento é fraqueza") e sua reação corporal não vai estar guiada pela lucidez que acompanha qualquer ato consciente ("a fé do corpo é estupidez"). Você ficou preso mentalmente à "certeza" de que o ruim imaginado com respeito a esse ato ou a essa situação "x" poderia realmente acontecer, porém, como não tem outra saída, " mobiliza" inconscientemente seu "Centro do Movimento" e executa ou enfrenta a situação "sem consciência de si". O resultado pode ser bom ou ruim, positivo ou negativo, porém você não se importa com isso naquele momento. Esta forma de reagir contrafóbica é a que é realmente perigosa e não a situação ou o ato em si mesmo. Quando você consegue agir com verdadeira Fé, você se liberta dos limites que seus medos lhe impõem. Sua consciência fica livre, acima da sua "Traço". Então seus Centro Emocional e Físico se comportam de acordo com o que realmente "sabem" fazer, com plena capacidade. Helen Palmer cita na sua obra sobre o Eneagrama o seguinte depoimento de uma mulher Tipo 6, que demonstra o que estou tentando explicar-lhe:

"Freqüentei a City University em Manhattan e usava o metrô para ir às aulas. Nunca me preocupava com as viagens de dia quando havia multidões, e eu podia ler meus textos todo o trajeto desde a estação da Rua Delancey. Quando eu tinha aula à noite e tinha de esperar sozinha na plataforma, eu ficava muitas vezes apreensiva, e combinei com meu namorado de me encontrar na Delancey e a gente andar juntos até minha casa.

Uma noite, um louco entrou no vagão. Ele fazia caretas e cerrava os punhos e começou a dizer palavrões andando pelo corredor. Havia pouca gente no metrô, e ninguém tinha coragem de olhar o rosto do louco.

De repente, ele descobriu alguém no assento atrás de mim, apontou, praguejou e veio em nossa direção, e então eu me vi bloqueando sua passagem. Meu corpo tinha se erguido, e eu ouvia minha voz falando com o sujeito sem saber o que eu devia dizer. Ainda não consigo me lembrar do que eu disse, mas sei que, ao ver uma arma na mão dele, não tive medo algum.

Eu parecia estar repetindo os movimentos de algo que já tinha acontecido antes. Não me surpreendi quando vi dois braços pegando-o pelas costas numa chave de cabeça nem quando arranquei a arma da mão dele quando ele apontou o meu rosto. Quando encontrei meu namorado na Delancey, eu estava tão impassível que ele teve dificuldade em acreditar que minha história fosse verdadeira."

Simplesmente, "a Fé da consciência é liberdade"! Veja como de novo é importante o controle da "imaginação" e a prática da "consideração externa" para que essa Fé consciente seja conhecida por você: "A fé é a certeza do que se espera, a convicção do que não se vê." Aprenda a ter certezas positivas e compreenda que aquilo que ainda não aconteceu, que ainda "poderia acontecer" ou "acontecerá" depende, em grande parte, da sua total consciência do momento presente, porque é no presente que criamos o futuro.

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