O Eneagrama - tipos
Quinto Traço
O avarento e solitário pensador
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Gurdjieff ensinava que "é impossível
lembrar-se de si mesmo. E não podemos nos lembrar,
porque queremos viver unicamente pelo mental... Talvez
vocês se lembrem do que dissemos do homem: nós
o comparamos a uma atrelagem com um amo (o Ser), um cocheiro
(Centro Intelectual), um cavalo (Centro Emocional) e uma
carruagem (Centro do Movimento). Não podemos nem
falar do amo, pois ele não está presente;
de modo que só podemos falar do cocheiro. Nosso
mental é o cocheiro... Todos os interesses que
temos em relação à mudança
e à transformação de nós mesmos
pertencem apenas ao cocheiro, quer dizer, são unicamente
de ordem mental... A transformação não
se obtém pelo mental; se for pelo mental, não
tem nenhuma utilidade. Por essa razão devemos ensinar,
e aprender, não por meio do mental, mas do sentimento
e do corpo... Naqueles que estão aqui, aconteceu
acidentalmente um desejo de chegar a |
algo, de mudar alguma coisa. Mas apenas no mental. E nada
mudou ainda neles. Não passa de uma idéia que
têm na cabeça e cada um permanece o que era.
Mesmo aquele que trabalhasse mentalmente durante dez anos,
que estudasse dia e noite, que se lembrasse mentalmente e
lutasse, mesmo esse não realizaria nada útil
ou real, porque mentalmente nada há para mudar. O que
deve mudar é a disposição do cavalo.
O desejo deve estar no cavalo e a capacidade na carruagem.
Mas como já dissemos, a dificuldade é que, devido
à má educação moderna, a falta
de relação entre nosso corpo (carruagem), nosso
sentimento (cavalo) e nosso mental (cocheiro) não foi
reconhecida desde a infância, e a maioria das pessoas
está tão deformada que não há
mais linguagem comum entre uma parte e outra..."
Certa feita, falando sobre a necessidade do desenvolvimento
harmonioso dos três centros no ser humano (Físico,
Emocional e Intelectual), Gurdjieff disse: "Em cada um
de vocês, uma das máquinas internas que os constituem
está mais desenvolvida do que as outras. Não
há nenhuma conexão entre elas. Só se
pode chamar homem sem aspas aquele em quem as três máquinas
estão igualmente desenvolvidas. Um desenvolvimento
unilateral só pode ser prejudicial. Um homem pode possuir
certo saber, pode saber tudo que deve fazer... esse saber
é inútil e pode até se revelar perigoso.
Cada um de vocês é deformado..."
Se você acha que mais de 50% das seguintes frases,
afirmações e perguntas refletem sua personalidade,
provavelmente você é um Tipo 5. O quê?
Sim, eu sei que você estará pensando nas razões
pelas quais teria que desconfiar deste comentado Eneagrama.
Existem estudos sérios a respeito? Será que
é algo valioso mesmo? Ou apenas será mais uma
dessas "abobrinhas" que estão em moda por
aí e que enganam tantas pessoas incapazes de pensar
e raciocinar? Hummm! Pense no assunto. (Só espero que
não se transforme apenas em outro de seus estudos profundos,
tá?)
"Há assuntos que só podem ser analisados
friamente à luz da razão." – "O
que é que eu estou sentindo no meu coração?!...
não entendo o sentido da sua pergunta, explique-se
melhor!" – "Ter que ir a uma festa é
um sofrimento para mim, especialmente porque tenho que ouvir
tanta bobagem...!" – "Gosto de estar sozinha,
pensando, meditando no meu canto em silencio." –
"O meu quarto é o único local da casa no
qual posso ficar mais livre, sem ter que falar com ninguém."
– "Sempre que invadem minha privacidade eu faço
tudo para recuperá-la." – "Tento criar
certa distância quando preciso estar num grupo de pessoas."
– "Gosto de ser reconhecido pelos meus conhecimentos
especializados." – "Será que poderia
ser mais generosa na próxima vez?" – "Sei
ficar invisível para os demais quando necessito."
– "Fazer críticas inteligentes e engraçadas
é um dos meus costumes favoritos!" – "Não
gosto de depender de outras pessoas." – "Tenho
dificuldades para viver relacionamentos amorosos." –
"Receber presentes de aniversário é muito
comprometedor. O que será que essa pessoa espera de
mim?" – "Somente com pessoas de meu nível
intelectual me sinto mais à vontade." –
"Atualmente, estou escrevendo os resultados dos meus
estudos sobre a incidência do ozônio no cultivo
de fungos comestíveis tropicais. Não tenho o
que falar agora...!"
O DESAPEGO: A VIRTUDE DE FICAR ENTREGUE
A esta altura, você talvez consiga "sentir"
quanto esconde esta palavra após a breve análise
do Traço Principal e algumas de suas manifestações.
Desapego implica, em primeiro lugar, "desprender-se"
dessas defesas e preconceitos que o levam a sentir o contato
com os outros como ameaçador. Desapego é parar
de pensar que algo pode ser perdido, que algo pode ser tirado
de você. Desapego implica abrir-se sem temores, disposto(a)
a viver a realidade tal qual ela é. Desapego é
perceber que você nega a você vivências
e satisfações que poderiam ser uma porta para
sentir a vida real. Desapego é compreender que solidão
não é isolamento, que compartilhar não
é deixar de ter, que abrir-se não é ficar
nu ou vulnerável e sim receptivo e acolhedor. Desapego
não é sofrer quando chega o momento de dar,
é descobrir que não precisa dar demais, para
contrariar qualquer das formas em que se manifesta sua avareza.
As virtudes que acompanham o desapego são a coragem
(Ponto 6) e a Equanimidade (Ponto 4).
Sim, para abrir-se e desapegar-se, é preciso coragem.
Não supor demais, não acautelar-se demais, não
criar inimigos imaginários. Desapegar-se não
deve ser um exagero, a Equanimidade precisa ser compreendida.
Nada de exageros. Nem muito aberto, nem muito fechado, nem
muito generoso, nem muito pé-atrás, etc. No
desapego não existe temor de perder, nem algo a proteger.
O desapego é uma espécie de certeza de que o
que se possui verdadeiramente nunca se perde, sempre está
aqui e quando compartilhado aumenta, não diminui. No
desapego nada se espera. Não existe qualquer coisa
a ser esperada. O desapego é a compreensão de
que muito da vida apenas acontece e que nem tudo pode ser
controlado. Desapego é uma das virtudes principais
na doutrina budista. Seu sinônimo cristão chama-se
contentamento. Não vou me estender nisto e peço
para você refletir. O importante aqui é compreender
que superar a avareza em qualquer de suas expressões
não implica uma violenta expressão contrária,
nem num ir e vir nos extremos de dar ou reter. No seguinte
depoimento, está explícita a forma errada de
interpretar o desapego a nível material:
"Às vezes entrego, em minutos, tudo que consegui
com sacrifício durante meses. Em outras ocasiões
me conduzo de uma maneira mesquinha, recusando-me a dispensar
pequenas coisas, como se o fato de as dar me transformasse
em um miserável paupérrimo. Esta atitude me
provoca uma profunda vergonha. Acho que é para não
sentir esta vergonha que entrego, em outro momento, tudo com
a maior facilidade, parece que tenho pressa em me livrar da
possibilidade de sentir vergonha."
Com muita freqüência Tipos 5 se comportam de maneira
semelhante no plano sentimental. Fechados demais, sentem-se
incapazes de qualquer contato e se culpam por não conseguir
se abrir com alguém, então, vão ao extremo
e vivem experiências "radicais" (movimento
ao Ponto 7), apenas para sentir que são capazes de
viver determinadas experiências. Nada disso é
desapego. No desapego não existe angústia, nem
temor, nem sentimento de culpa. O desapego é a renúncia
a mentalizar a existência e a decisão de vivê-la
plenamente.
UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA: A DIFERENÇA
ENTRE CONHECIMENTO VIVO E CONHECIMENTO MORTO
Viver plenamente a existência significa obter o privilégio
de conhecer um tipo de sabedoria e de conhecimento que não
se esgotam jamais. Quando renunciamos ao "conhecimento
morto", à mera "intelectualização"
da realidade, não renunciamos ao saber. Pelo contrário,
nos transformamos em seres capazes de "revitalizar"
o saber. Nos Relatos de Belzebu a seu neto, livro de Gurdjieff
(ainda não traduzido ao português), o sábio
personagem principal ensina a seu neto Jassin a diferença
entre o "conhecimento morto" ("saber comum",
sem compreensão verdadeira ou apenas intelectual, sem
vivências reais) e o "conhecimento vivo" (o
"saber real", fruto da compreensão e da vivência
graças ao trabalho conjunto de sensação-emoção
e pensamento), com as seguintes palavras:
"Agora, então, meu filho, para que compreenda
melhor aquilo que estou lhe falando no momento, considero
necessário lhe dizer, mais uma vez, de uma forma mais
precisa, a diferença (...) entre o 'saber' e a 'compreensão'(...)
A 'razão da comprensão', razão consciente
própria de todos os seres tricerebrais (de três
centros; como o ser humano) que povoam os demais planetas
do nosso Megalocosmos, a qual possuíam os seres terrestres
de épocas passadas, é algo que se funde com
a presença geral (...) toda informação
percebida por essa razão transforma-se para sempre
em parte indivisível deles mesmos.
Quaisquer que sejam as mudanças de um ser e os resultados
que geram a contemplação eseral (do ser, com
o ser e para o ser) do conjunto das informações
anteriormente percebidas por essa mesma razão, sempre
formarão parte da sua essência.
Porém, a 'razão do saber', habitual na maioria
dos teus favoritos (os seres humanos) contemporâneos,
toda nova impressão que ela percebe, e todo resultado
intencional ou simplesmente automático das impressões
anteriores, não fazem parte do ser senão apenas
de maneira temporal; não podem aparecer neles senão
em certas circunstâncias e ainda, sob a condição
daquelas informações nas quais se alicerçam,
serem 'refrescadas' e 'repetidas', vez por outra, pois na
falta desta condição, essas impressões
anteriores se 'evaporam' para sempre da presença destes
seres tricerebrais." Belzebu agrega mais na frente:
"... Eis aqui a razão pela qual, na presença
dos seres tricerebrais que tão-somente possuem a 'razão
do saber', tudo quanto acabam de aprender deposita-se e fica
para sempre num estado de simples informação,
da qual eles não tomam consciência alguma com
o seu ser. Por isso, todos os novos dados percebidos e fixados
neles desta maneira, não contêm nenhum valor
com respeito ao aproveitamento que eles poderiam tirar (desses
dados) para sua existência futura..."
FINALMENTE, NÃO ESQUEÇA A LIÇÃO
QUE ESCONDE A HISTORINHA DO GEÓGRAFO NO "PEQUENO
PRÍNCIPE" DE SAINT-EXUPÉRY
Quando "fechados" em nossos pensamentos, perdemos
contato com a existência real e a interpretamos segundo
nossas paixões, temores e defesas "mentais"
(e, no pior dos casos, "paranóicas"), corremos
o risco de acabar igual ao geógrafo do Pequeno Príncipe,
o qual explicava que ele fazia seus mapas apenas segundo os
relatos que os viajantes lhe traziam, sem nunca constatar
in loco se eles eram verdadeiros ou falsos. O principezinho
olhando o belo planeta do geógrafo lhe faz perguntas
sobre o oceano, as montanhas, rios e cidades que existem nele,
porém o teórico geógrafo responde a todas
elas dizendo: "Como hei de saber?" O pequeno príncipe
lhe diz, surpreso: "Mas o senhor é geógrafo!"
A desculpa do geógrafo é: "É claro,
(...) mas não sou explorador (...) O geógrafo
é muito importante para estar passeando. Não
deixa um instante a escrivaninha (...)." Compreende a
mensagem? Deixe "sua escrivaninha" do Centro Intelectual
e torne-se um "explorador", até porque, como,
paradoxalmente, o reconhece o próprio geógrafo
dessa bela e sabia historinha: "Há uma falta absoluta
de exploradores.
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