O Eneagrama - tipos
Quarto Traço
O sofredor original invejoso

Alguém perguntou: "É preciso sofrer o
tempo todo para manter a consciência aberta?" Ele
respondeu: "Há muitas espécies de sofrimento.
O sofrimento também é um bastão de duas
pontas. Uma leva ao anjo; a outra, ao diabo. Temos que lembrar
o movimento do pêndulo: após um grande sofrimento
existe uma reação proporcionalmente grande.
O homem é uma máquina muito complexa. Ao lado
de cada 'bom caminho' há sempre um 'mau caminho' correspondente.
Um caminha sempre ao lado do outro. Onde existe pouco bem,
existe pouco mal; onde tem muito bem, tem também muito
mal. O mesmo acontece com o sofrimento; é fácil
encontrar-se no caminho equivocado. O sofrimento se transforma
em algo agradável. Alguém é golpeado
uma vez, e tem dor; a segunda vez tem menos dor, na quinta
vez já está desejando ser golpeado. Deve-se
estar em guarda, deve-se saber o que é necessário
a cada momento, porque a gente pode se desviar do caminho
e cair num fosso."
G. I. Gurdjieff
"Se você acha que mais de 50% das afirmações
e perguntas abaixo refletem sua personalidade, é provável
que você seja um Tipo 4 ou uma pessoa sensível,
quase sempre incompreendida, capaz de ver aquilo que ninguém
vê... enfim, a vida é assim e devemos aceitá-la,
certo?" (oh!, sniff, sniff!):
"Sou extremamente sensível...!" –
"Às vezes me pergunto: será que nunca encontrarei
o verdadeiro amor?" – "Comprei esta relíquia
de 5cm por US$ 5. 000 numa casa de antigüidades... podem
ficar surpresos e achar que sou um tolo, mas só eu
sei o quanto vale esta peça!" – "Não
posso ser feliz em um mundo tão cego e insensível!"
– "Nada no presente me faz feliz: a lembrança
é ainda muito forte!" – "Algum dia
espero encontrar o que procuro!" – "Ninguém
compreende meus sentimentos." – "Ah! que tempos
aqueles, por acaso não seria maravilhoso voltar ao
passado?"; – "Eu não suporto a insensibilidade
de algumas pessoas. Não enxergam a beleza!" –
"Já pensei em me suicidar algumas vezes."
– "Melancolia, esse é meu estado permanente!"
– "Sofrer, esse é o meu destino." –
"Ninguém valoriza este tipo de livros como eu...
São únicos!" – "Por favor, não
toque essa peça diretamente, bote estas luvas...!"
– "Às vezes imagino minha morte... aaah!"
– "Tenho a sensação permanente de
falta... Simplesmente algo ainda não aconteceu na minha
vida!" – "Iniciei esta valiosa coleção
há 10 anos. É única e não a venderia
ainda que necessitasse!"
INICIANDO O PROCESSO DE MUDANÇAS POSITIVAS
A OBSERVAÇÃO DOS COMPANHEIROS
ENEAGRAMÁTICOS 3 E 5
Você descobrirá muitas "dicas" sobre
seu mundo interno, observando as influências dos Pontos
3 e 5 do Eneagrama. Os aspectos positivos do Ponto 3, tais
como a capacidade de trabalho, de encontrar satisfação
nas suas conquistas ao mesmo tempo que luta por atingir metas
e objetivos, podem ajudá-lo a não abandonar
seus projetos antes de concluí-los. Os Tipos 4 estão
num ponto do Eneagrama no qual é preciso aprender a
finalizar projetos, evitando os desvios, ainda que pareçam
existir muitas razões para abandoná-los. Este
conselho, ainda que valha para todos os Tipos, é de
fundamental importância para os Tipos 4 e tem a ver
com a chamada Lei de Oitava e os pontos de choque de que trata
P. D. Ouspensky em Fragmentos de um ensinamento desconhecido.
Não posso prolongar o assunto aqui. Peço apenas
para que você reflita nele e aprenda a contrariar sua
Traço quando sinta esse impulso de não chegar
até o fim nos seus projetos, ou quando justifique racionalizando
o porquê de determinados desvios nas ações
realizadas ao longo de sua existência. Do Ponto 3 aprenda
também os perigos de mentir-se em relação
à aparente impossibilidade de ser feliz. Aprenda do
3 a curtir seu presente e agradeça e valorize o que
possui hoje. Aprenda a viver mais presente e no presente,
permitindo-se ser feliz e parando de sofrer inutilmente. Seja
mais extrovertido e curta suas conquistas pessoais.
Do Ponto 5, os Tipos 4 possuem a capacidade de pensar, raciocinar
profundamente e o gosto de estar sozinhos. (Krajcberg gosta
disso e até construiu sua casa no topo de uma árvore.
Algo que qualquer Tipo 5 adoraria, certamente.) Os Tipos 4
são pessoas inteligentes, capazes de observações
e pensamentos originais e interessantes. Gostam de estar sozinhos,
como reconhece nossa aluna neste depoimento: "...Me sinto
em paz, serena e tranqüila quando me interiorizo. Quando
estou só comigo mesma, estou com uma sensação
interna muito boa e agradável. Quando estou estressada
busco, quando posso, ficar comigo mesma, e me equilibro emocionalmente."
Do Ponto 5, procure evitar que essa capacidade de raciocinar
não se transforme em capacidade de racionalizar negativamente
suas perdas e faltas. Tente reconhecer como nossa aluna que
"algumas vezes, quando sou tomada por um sentimento negativo,
ficar só aumenta ainda mais a dor, porque procuro racionalizar
o sentimento e muitas vezes isto leva-me a um estado depressivo".
Então, fique de olho...
Do Ponto 5, Tipos 4 deveriam aprender a refletir e sentir
menos emocionalmente. O problema aqui é não
saber sentir. Sente-se com exagero. Daí a necessidade
de ser equânime. Os aspectos negativos da influência
do Ponto 5 que deverão ser evitados são, entre
outros, a tendência a criticar ou desmerecer os outros,
a tendência a afastar-se das pessoas, lembrando que
"solidão" não é "isolamento",
a tendência a um pensar negativo em relação
ao presente e a tendência à autocrítica
destrutiva.
PERCEBENDO O NEGATIVO E O POSITIVO DOS MOVIMENTOS
AOS PONTOS 2 E 1
O movimento da seta para o Ponto 2 provoca nos Tipos 4 importantes
reações. Quando negativo, esse movimento os
transforma numa espécie de sofredor orgulhoso. Sofrer
passa a ser um destaque da personalidade. Por outro lado,
Colabora na teatralização dos seus sofrimentos
com objetivo de atrair a atenção dos demais.
Não exagere suas possíveis carências.
Não pretenda, como os Tipos 2, ajudar os outros ilimitadamente.
É positiva sua sensibilidade pelos sofrimentos dos
outros, mas aprenda a "desidentificar-se" quando
necessário. Evite manipular os outros e tente não
depender demais do "ombro amigo". O positivo do
movimento ao 2 se produz quando os Tipos 4 aprendem a estar
com os pés no chão graças ao cultivo
da humildade egoica. Não "inflacione" seu
ego, a ponto de achar que você é único,
original e tão diferente dos outros que até
dá a impressão de não ser deste mundo.
No movimento contra a seta ao Ponto 1, você descobrirá
como seu anseio por uma felicidade futura ou por voltar a
viver uma felicidade perdida evolui associado à idéia
de uma "perfeição" (o trabalho perfeito,
a atividade perfeita, o local perfeito, etc.) que não
existe na realidade. Este movimento negativo contra a seta
está presente numa parte do depoimento da nossa aluna.
Reflita no que ela percebe desta "busca" idealizada
do que poderia ser a situação perfeita:
"Quando enfim estava estagiando e com a possibilidade
de pós-graduação no Museu Nacional do
Rio de Janeiro, resolvi abandonar tudo em troca de um sonho
maior: viver no campo... Até hoje a minha indecisão
me impede de promover realizações..."
Lembre-se, não admita o sabotador interno. Decida
parar de sofrer inutilmente a partir de agora. Aprenda a observar
como a insatisfação com o presente provoca uma
raiva interna que aumenta a dor de viver. Aprenda a ser menos
crítico em relacão à sua realidade e
na sua percepção das pessoas que se relacionam
com você direta ou indiretamente. Esta atitude positiva
pode salvá-lo da armadilha de querer descobrir "a
quinta pata do gato", que na verdade... não existe!
O positivo do movimento ao Ponto 1, é que ele permite
a você poder cultivar a Serenidade. Não seja
rígido com você a ponto de essa rigidez ofuscar
sua visão de outros ângulos da realidade. Cultivando
a Serenidade, você aprende a relaxar e sentir o que
possui para ser feliz no presente, porque relaxado você
fica mais ciente da existência real. Serenidade e Equanimidade
se complementam.
Ao referir-se ao positivo que este conhecimento trouxe à
sua existência, nosso aluno 4 termina seu depoimento
lembrando que precisa "trabalhar os demais planos do
ser (principalmente o físico), para vivenciar o Eneagrama
numa plenitude maior, mais humana, mais enriquecedora, mais
próxima da nossa verdadeira essência".
Na verdade, os Tipos 4 ganham em consciência de si
quando trabalham através do Centro do Movimento.
A razão é simples: ele está sempre no
momento presente. Manifestar-se conscientemente através
dele facilita o Trabalho. Hermeticamente, isto se explica
graças à Lei de Correspondência: se é
assim externamente (presença através do Centro
do Movimento), assim será internamente (presença
do observador no momento presente).
TRABALHANDO PARA CONSEGUIR SER EQUÂNIME
Já dissemos que Tipos 4 são pessoas de percepção
e sensibilidade extraordinárias. Aliás, isso
é fácil de constatar nos exemplos e depoimentos
citados neste capítulo. O fato de serem sensíveis
ao sofrimento, faz deles pessoas muito fraternas e compreensivas,
capazes de ajudar a outras pessoas. Existem certos aspectos
que fazem de Tipos 4 e 8 semelhantes na procura da justiça.
Através de meios diferentes, ambos os Tipos sentem-se
chamados a combater injustiças.
A prática da Equanimidade, virtude a ser descoberta
e praticada pelos Tipos 4, pode fazer dessa sensibilidade
ao seu sofrimento e ao dos outros uma poderosa ferramenta
de crescimento e progresso pessoal e coletivo. Podemos definir
a Equanimidade como a capacidade de ficar no meio com respeito
aos extremos do sofrimento. É essa capacidade de achar
o que Budha chamou "o Caminho do Médio",
que fica a igual distância dos extremos do nosso famoso
bastão.
Se o sofrimento inconsciente é uma tolice, o sofrimento
consciente é um poder nas mãos daqueles que
aprendem a usá-lo.
Os alunos no IDHI® aprendem, através de práticas
precisas, essa diferença, e chegam a utilizar o sofrimento
consciente como um instrumento gerador de benefícios
deliberadamente objetivados.
Quando alguém que possui esta Traço Eneagramática
descobre suas formas de "masoquismo", está
perto da Equanimidade, porque esse "dar-se conta"
é o primeiro passo para se tentar mudanças efetivas.
Para isso se precisa considerar externamente e não
achar que o "nosso sofrimento é único e
inigualável". O nosso aluno descobriu que a somatização
do seu sofrimento foi um processo que lhe permitiu melhorar
interna e externamente, aos poucos, como ele mesmo descreve:
"Como eu sabia que meu pai não tinha dinheiro
para o tratamento, mas que se sacrificaria por mim, tomei
a decisão de fingir que estava bom. Joguei o vidro
de calmantes pela janela e até hoje, 29 anos depois,
nunca mais coloquei em minha boca algo semelhante. Pela primeira
vez em minha vida, decidi não mais apoiar-me em fantasias,
nem em gozos teatrais masoquistas, nem em qualquer muleta
externa. Resolvi caminhar pelas próprias pernas, usando
minhas próprias forças, enfrentando sozinho
meus próprios fantasmas. Creio que foi minha primeira
grande atitude saudável perante a existência,
a primeira grande conquista de autonomia. E comecei a melhorar."
Na continuação do depoimento pude constatar
como ele conseguiu ultrapassar momentos que, para outros "românticos
trágicos", teriam sido difíceis ou impossíveis
de superar. As influências positivas dos Pontos 3 e
2 foram fundamentais, como se depreende do seu próprio
relato.
Após ter superado uma "séria inclinação
ao suicídio" devida ao rompimento com uma garota
por quem era apaixonado, ele decide "explodir com tudo",
ou seja, destruir seu passado de sofrimento e reiniciar sua
vida longe de sua terra natal (está lembrando Krajcberg
abandonando a Europa?... Pois é... Também Sá-Carneiro,
enfim, como a felicidade parece nunca estar aqui...):
"Abandonei meu curso de Psicologia no meio do segundo
ano... E junto com uma amiga recente, mudei-me com a cara
e a coragem para o Rio de Janeiro. Nesta cidade, fui mais
feliz.... Passei a representar cada vez menos, embora não
na velocidade desejável. Devo confessar que as perdas
amorosas me aprisionaram muito tempo no passado, num limbo
de sofrimento, não em um paraíso perdido, mas
numa mescla de dor e vazio aparentemente insuperáveis,
que só o tempo poderia curar – e esse tempo de
cura demorava muito a chegar, pois o vício do sofrimento
estava enraizado em meu coração."
SUPERANDO "O VÍCIO DO SOFRIMENTO"
A última parte do depoimento deste aluno me fez lembrar
a resposta que o sábio Sileno* deu ao poderoso Rei
Midas, após um duro interrogatório com o qual
o lendário rei "o obrigou a transmitir-lhe importantes
ensinamentos", revelando-lhe com desdém que o
mais conveniente para ele, como parte da espécie humana,
e portanto, conveniente a todos nós humanos era, simplesmente,
morrer: "O melhor de tudo é para ti inteiramente
inalcançável: não ter nascido, não
ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti
é logo morrer." Com certeza, para alguns Tipos
4 tão sensíveis ao sofrimento e tão trágicos
quanto os gregos da época de Eurípedes, essa
dura resposta teria sido um bom motivo para afundar de vez
no "vício do sofrimento" e ainda seria uma
boa razão até para justificar o suicídio.
Porém nosso aluno teria questionado o velho e sábio
sátiro.
A descoberta do sofrimento como um vício, um vício
que ele reconhece ter superado após anos de grandes
lutas internas, "auxiliado... pelos choques dados pela
vida e pelos toques que recebi das pessoas mais próximas",
foi o que finalmente o conduziu após os 30, e já
cansado de tanto sofrimento inútil, à descoberta
dos primeiros frutos da equanimidade: "... Consegui finalmente
contrariar minha Traço e abrir espaço para
a entrada da felicidade em meu coração!"
Sim, não importa quanto tempo você demore para
compreender que o sofrimento inconsciente é um VÍCIO,
um vício que faz com que os Tipos 4 percebam, como
nossa aluna, que essa atitude tão trágica perante
a existência não é boa porque: "Sempre
insatisfeita. Os ideais nunca eram atingidos! A realidade
era sempre castradora e esmagadora se não cruel e ameaçadora!"
Então, mudar de atitude é fundamental para
conseguir vivenciar a virtude da equanimidade. Não
se deixe influenciar demais pelo "velho sátiro"
Sileno que nos lembra o trágico da nossa existência.
É verdade que o sofrimento existe, porém não
é verdade que a felicidade não possa existir
nas nossas vidas. Sofrimento e felicidade são apenas
o natural movimento do pêndulo existencial. Ficar à
mesma distância dos extremos desse movimento é
o segredo oculto nesse Arcano Maior do Tarô chamado
por Aleister Crownley, "A Arte", sim, a arte de
viver neste Templo da vida cujo chão está formado
de quantidades iguais de quadrados pretos e brancos, conformando
um harmonioso e belo Mosaico pelo qual devemos aprender a
caminhar equânimes, aplicando o Princípio Hermético
da Polaridade.
* O lendário "pai dos Sátiros" e
"educador de Dioniso", segundo nos ensina o saudoso
Prof. Junito Brandão no seu Dicionário mítico-etimológico
(Edit. Vozes). Sugiro a leitura do livro O nascimento da tragédia
no qual F. Nietzsche comenta esta lenda.
APLIQUE O CONSELHO DE GURDJIEFF
Assim como no início deste capítulo citei uma
resposta de Gurdjieff em relação ao tema do
sofrimento, acho oportuno citar outra no final. Espero que
você reflita sobre ela e se lembre dela a cada dia.
Quando alguém perguntou a Gurdjieff:
"qual o papel do sofrimento no autodesenvolvimento?",
ele respondeu: "Existem duas classes de sofrimento: consciente
e inconsciente. Somente um tolo sofre inconscientemente. Na
vida existem dois rios, duas direções. No primeiro
rio, a lei é somente para o rio, não para as
gotas d'água. Nós somos as gotas. Num momento
uma gota está na superfície, num outro momento
está no fundo. O sofrimento depende da sua posição.
No primeiro rio, o sofrimento é completamente inútil,
porque ele é acidental e inconsciente. Paralelo a esse
rio tem um outro. Neste outro rio existe outra classe de sofrimento.
A gota do primeiro rio tem a possibilidade de passar ao segundo.
Hoje a gota sofre porque ontem não sofreu o suficiente.
Aqui opera a Lei de Retribuição. A gota também
pode sofrer por antecipação. Cedo ou tarde tudo
se paga. Para o Cosmo o tempo não existe.
O sofrimento pode ser voluntário e somente o sofrimento
voluntário tem valor.
A gente pode sofrer simplesmente, porque se sente infeliz.
Ou pode sofrer por ontem para preparar-se para o amanhã.
Repito, somente o sofrimento voluntário tem valor."
Boa reflexão! |