O Eneagrama - tipos
Primeiro Traço
O metódico direitinho irado
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"A moral pode ser objetiva ou subjetiva.
A moral objetiva é a mesma em toda a Terra; a
moral subjetiva é diferente em toda parte, e
cada qual a define a seu modo: o que é 'bem'
para um é 'mal' para outro e vice-versa. A moralidade
é pau de dois bicos, podemos apontá-lo
como quisermos..." G. I. Gurdjieff.
Gurdjieff diz: "Outro exemplo, talvez pior ainda,
é o do homem que considera que, na sua opinião,
'deveria' fazer algo, quando na realidade não
tem que fazer absolutamente nada. 'Dever' e 'Não
dever' é um problema difícil; em outras
palavras, é difícil compreender quando
um homem realmente 'deve' e quando 'não deve'
(fazer algo) (...)
Gurdjieff citado em Fragmentos de um ensinamento desconhecido
por P. D. Ouspensky |
Se você sente que mais de 50% destas sentenças
e afirmações refletem sua personalidade, então,
talvez você seja um Tipo Um. (Ora!, Eu sei que não
são tão exatas assim, mas...)
"Sinto minha vida como uma busca incessante daquilo
que julgo perfeito." – "Eu me comporto de
acordo com meu 'código interno'." – "Desde
muito cedo me foi incutido um senso de responsabilidade, no
sentido de que deveria dar o exemplo." – "O
meu dia-a-dia é tenso, cheio de cobranças e
exigências." – "Vou revisar teu quarto...
quero ver se tudo está arrumado." – "Cada
coisa em seu lugar." – "Eu gosto de você
assim, direitinho..." – "Uma moça inteligente
que sabe se comportar merece tudo!" – "Eu
faço tudo bem-feito!" – "Minha filha
é muito comportada, ninguém pode falar nada
dela!" – "Por dentro estou sempre dizendo
'eu tenho que...', 'eu deveria'..." – "Se
não pode ser bem-feito, melhor não fazer!"
– "Como é possível que você
se mostre dessa maneira, estou totalmente decepcionado com
você!" – "Eu acho que você não
vai fazer besteiras, certo?" – "Ao me deparar
com fotos da minha infância, notei que sempre estava
vestido de forma arrumada e bem-comportada." –
"Nossa família foi sempre um exemplo!" –
"A disciplina é muito importante!..." –
"Não pode ficar melhor?" – "Primeiro
a obrigação, depois a diversão!"
– "Poderia ficar melhor, claro!"
O PODER ESSENCIAL POR TRÁS DA MÁSCARA
NÚMERO 1 SURGE DO CULTIVO DA VIRTUDE DA SERENIDADE
(ou do SER NA UNIDADE)
Na versão para o Ocidente que Blavastky fez do milenar
Livro dos Preceitos de Ouro tibetano, sob o título
de A Voz do Silêncio (traduzido para o português
primorosamente pelo poeta Fernando Pessoa), lemos o que pode
ser a "chave mestra" que conduzirá os Tipos
1 até esse nível de maior "plasticidade"
e ao conhecimento profundo de si mesmos:
"Sê como o Oceano, que recebe todos os rios e
torrentes. A poderosa serenidade do mar permanece inalterável,
sem senti-los..."
Sim, será necessário cultivar a Serenidade...
A Serenidade poderia ser compreendida como "ser na unidade".
Qual Unidade? Aquela Unidade que foi a Primeira Manifestação
do Todo. Uma Unidade que Une Todas as Coisas, porque Todas
as coisas tiveram nela sua origem: "No Princípio
era o Verbo... por Ele foram feitas Todas as Coisas."
Tipos 1 "sentem" instintivamente essa Unidade original,
e sentem que quanto mais Ela se expresse mais perfeito será
tudo. Quanto menos manifestação da Unidade,
menos perfeição. O erro, ou melhor, o "desvio"
(uso a palavradesvio no seu significado radical, ou seja,
sair fora do caminho) psicológico principal é
não enxergar as múltiplas manifestações
possíveis dessa "intuída" Unidade
arquetípica que subjaz potencialmente por trás
de todas as coisas e que é dinâmica em sua essência.
Nada é perfeito quando sujeito à manifestação
existencial, porém nada é absolutamente imperfeito
e tudo pode ser aperfeiçoado. O modelo pode ser perfeito
porém suas expressões podem não ser perfeitas.
Quanto mais "semelhante" ao modelo, mais perfeita
a obra. Somente não se pode esquecer que, talvez, esse
modelo seja também passível de perfeição
e, paradoxalmente, imperfeito no seu nível. Quando
não se consegue "descobrir" esta perfeição
eidética e dinâmica subjacente em todas as coisas,
quando não se pode sentir o potencial de aperfeiçoamento
e não se pode imaginar de quantas maneiras esse potencial
pode vir a se manifestar, o Tipo 1 manifesta sua Raiva/Ressentimento/Rigidez.
O imperfeito é rejeitado. Acusa-se de "imperfeito"
àquilo que oculta essa Unidade/Perfeição
que instintivamente se deseja atingir. Não se percebe
o perfectível do imperfeito, nem se consegue perceber
sua relativa perfeição em certo nível.
Por isso, a raiva/ressentimento/rigidez se transforma em "idéia
fixa" de como fazer o certo, de que é o certo
e em inconformismo. Desta maneira, Tipos 1 se defendem contra
tudo o que ameaça suas "perfeições
definitivas e absolutas". Este estado interno o castiga
com a rigidez e a cristalização psicológicas.
Não percebe que essa cristalização interna
aprisiona suas extraordinárias energias.
Tipos 1 declaram, com falsa certeza, que só existe
um caminho certo e nenhum mais, e quando não conseguem
impor este "único caminho certo", quando
não conseguem realizá-lo, interna ou externamente,
a raiva, às vezes impedida de se manifestar, se disfarça
numa espécie de raiva justa*, uma raiva racionalizada,
por não ter conseguido realizar da única maneira
que se acredita possível o supostamente "perfeito".
Quando esta visão unilateral da realidade se consolida,
poderá provocar o surgimento, em alguns deles, da compulsão
e obsessão que podem levá-los a conseqüências
psicopatológicas mais sérias.
O que poderia ser a virtude de pressentir a Unidade por trás
da diversidade aparente, vira o vício de achar que
só existe uma única possibilidade de perfeição
para cada manifestação daquele 1 primordial.
O Perfeito não será enxergado como um processo
dinâmico em constante movimento e capaz de superar o
que num determinado instante parecia ser sua máxima
expressão. O Tipo 1 transforma o Perfeito num estado
rígido, cristalizado, terminal, que não pode
ser diferente daquilo que ele determinou como perfeito, daquilo
que ele prejulga como certo. Então, nesse estado de
fixação e obsessão interna, nessa incapacidade
de perceber a ilimitada Unidade e a dinâmica dessa perfeição-que-sempre-se-aperfeiçoa,
o Tipo 1 não pode ver além de seu limitado "território".
Tudo o que seja perfeito terá que estar sujeito às
suas medidas, às suas normas, às suas percepções
do "certo" e do "errado". A ameaça
permanente de ver o "território" alterado
pelo "imperfeito" que vem de fora é exorcizada
com a diária conservação de tudo o que
pode consolidar a segurança e ordem do "seu"
território. Pode existir Serenidade no Tipo 1 que vive
nesse mundo de falsas perfeições e de parciais
visões da Unidade? Pode estar em Unidade com o Ser
que está presente em Todas as Coisas? Logicamente,
não. E por isso ele se torna seu próprio grande
acusador, que reprime, que julga, que ironiza, que manipula,
que limita a si mesmo e aos outros. Parece que deste modo
sua visão parcial da realidade, a minimização
da Unidade à sua aparentemente única maneira
de enxergá-la presente nas coisas, pode permanecer
segura e inabalável, porque foi "cercada".
Quando o Tipo 1 se dá conta de que essa Unidade da
qual sua Traço é um fraco e limitado reflexo
está presente Em Todas as Coisas e não somente
em algumas, quando percebe que essa Unidade pode assumir muitos
rostos, quando o Perfeito se compreende como uma dinâmica
sem os limites de seu "território", quando
o Perfeito pode ser enxergado nos outros modos de expressão
da realidade, em outros modos e maneiras de ver, fazer, sentir
e viver, então a Serenidade, o "Ser na Unidade"
surge e começa a substituir a Raiva da sua rígida
Traço. O mundo se amplia, as possibilidades se multiplicam.
Agora, tudo se torna possível. Tudo se torna dinâmico,
cheio de nuances e possibilidades insuspeitáveis, para
as quais o Tipo 1 está aberto, com a serena atitude
do observador imparcial que não precisa julgar, que
não precisa rejeitar ou acusar. Pouco a pouco, o Tipo
1 pode ser capaz de descobrir o Único Perfeito em todas
as múltiplas questões que se apresentam ante
ele na existência. Torna-se aberto, porque a serenidade
o transforma num ser receptivo. O conflito entre as polaridades
que pareciam irreconciliáveis diminui, porque a serenidade
produz o equilíbrio (7), a equanimidade (4) e a humildade
(2) necessários para a grande reconciliação
dos opostos. Esta reconciliação é própria
daqueles seres humanos que aperfeiçoam a si mesmos
através de um equilibrado discernimento. Alexandra
David-Néel, no seu livro Initiations Lamaïques
(Des Theories, des pratiques, des homens), publicado em português
com o título de Iniciações Tibetanas,
diz sobre as chamadas doutrinas da Senda Mística: "...
a moralidade (do homem esclarecido) consiste na escolha sagaz
que (ele) é capaz de fazer entre o que é bom
e o que não é, segundo as circunstâncias.
As doutrinas da Senda Mística não admitem o
Bem nem o Mal em si mesmos. O grau de utilidade de um ato
marca seu lugar na escala de valores morais..." O Juiz
unilateral, injusto e intransigente, se transforma no Juiz
de visão ampla, sábio e justo que vê além
das aparências e que conhece o justo meio de todas as
coisas, quando sabe discernir entre os opostos e aprende a
reconciliá-los. Esta reconciliação interior
é fundamental para a harmonia interna dos Tipos 1.
A Serenidade permite aos Tipos 1 ampliar suas possibilidades
de perfeição real. Torna-os capazes de descobrir
o "perfeito" nos planos e esquemas alheios, nos
modos com que as pessoas procuram fazer as coisas de maneira
certa. A sensação de estar divididos internamente
acaba. A raiva que não era expressada pode agora manifestar-se
adequadamente, porque se descobre que era apenas uma energia
mal direcionada e que somente parecia mais terrível,
porque assim como as águas estagnadas que não
podem seguir o seu curso, fedem e não servem, assim
essa raiva era apenas a energia a ser transmutada no rio poderoso
da serenidade interior. A serenidade transforma o crítico
interno num Buda sorridente. A serenidade mostra que já
não é necessário viver "no mundo
certo" e no "mundo errado" e que, pelo contrário,
tudo pode ser vivido além dos subjetivos limites do
"bem"e do "mal", do "certo"
e do "errado". A serenidade conduz à vivência
plena da existência, sem que pareça ser necessário
agir deste ou daquele modo, ou segundo este ou aquele esquema.
Um viver sem tensão, sem rigidez, sem emoções
ou sentimentos retidos. A serenidade é o resultado
daquele estado psicológico que G. I. Gurdjieff chamou
de "moral interna" em oposição à
moral subjetiva que muda de acordo com as épocas e
os costumes. Um estado no qual "o lobo e o cordeiro"
que carregamos conosco se reconciliam. Sobre isso, ele dizia
o seguinte:
"Seria melhor que você esquecesse a moralidade.
Toda conversa sobre a moralidade seria, neste momento, pura
conversa fiada (...) A moralidade interior, essa é
a sua meta... Quanto à moralidade exterior, é
diferente em toda parte. Devemos pautar nossa conduta pela
dos outros, e como se diz: 'Para viver com os lobos, devemos
uivar com os lobos'. Isso é a moralidade exterior.
Para a moralidade interior, o homem deve ser capaz de fazer,
e, para isso, deve ter um Eu (...)"
Para encerrar esta parte, penso que será valioso refletir
nas palavras de Laura, uma de nossas alunas Tipo 1 sobre seus
esforços em direção à Serenidade:
"Acho que o movimento inicial que tive, na busca da
serenidade, originou-se no desejo de 'não ser perfeita
como minha mãe'. Talvez porque aquilo não era
perfeição, mais parecia intolerância,
rigidez, angústia de viver.
Não tem sido fácil, pois fui bem 'treinada',
e qualquer desvio daquele caminho leva à sensação
de fracasso ou culpa. Eu era uma equilibrista andando no arame,
onde qualquer instabilidade poderia provocar a queda. Era
preciso muito controle para chegar ao fim da linha. E quando
isso era possível, a sensação de vitória
era menor que a tensão durante o percurso. Por outro
lado, gradativamente, fui percebendo que a minha constante
decepção devido às falhas dos outros
e a irritação quando meus desejos eram contrariados,
colocavam-me numa posição de distanciamento
das pessoas, pois eu exigia o que não poderiam me dar,
ao mesmo tempo em que me afastava de mim mesma, enquanto representava
um personagem que me fora imposto.
A partir dessa compreensão, venho exercitando um novo
tipo de vida, em que procuro ser mais flexível e espontânea
e tento colocar emoção nos relacionamentos,
sem medo de encarar meus limites e possibilidades, querendo
chegar mais perto da verdade.
Essa forma, que venho buscando cada vez mais, baseia-se na
aceitação das Leis Herméticas e no caminho
do autoconhecimento através da chamada auto-observação.
A compreensão de que é possível a transformação
contínua, ao mesmo tempo em que, humildemente, aprendo
que o 'que deve ser feito já está feito', me
permite mais serenidade na busca da perfeição,
presente no meu 'Eu Superior', e menos 'perfeccionismo', que
é a Traço que me prende e inibe a evolução." |